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sábado, 29 de outubro de 2011

A autonomia da USP!*

Por Lincoln Secco, Livre Docente em História Contemporânea na USP

Não é comum ver livros como armas. Enquanto no dia 27 de outubro de 2011 a imprensa mostrou os alunos da FFLCH da USP como um bando de usuários de drogas em defesa de seus privilégios, nós outros assistimos jovens indignados, mochila nas costas e livros empunhados contra policiais atônitos, armados e sem identificação, num claro gesto de indisciplina perante a lei. Vários alunos gritavam: “Isto aqui é um livro!”.

Curioso que a geração das redes sociais virtuais apresente esta capacidade radical de usar novos e velhos meios para recusar a violação de nossos direitos. No momento em que o conhecimento mais é ameaçado, os livros velhos de papel, encadernados, carimbados pela nossa biblioteca são erguidos contra o arbítrio.
Os policiais que passaram o dia todo da ultima quinta feira revistando alunos na biblioteca e nos pátios, poderiam ter observado no prédio de História e Geografia vários cartazes gigantes dependurados. Eram palavras de ordem. Algumas vetustas. Outras “impossíveis”. Muitas indignadas. E várias poéticas... É assim uma universidade.

A violação da nossa autonomia tem sido justificada pela necessidade de segurança e a imagem da FFLCH manchada pela ação deliberada dos seus inimigos. A Unidade que mais atende os alunos da USP, dotada de cursos bem avaliados até pelos duvidosos critérios de produtividade atuais, é uma massa desordenada de concreto com salas superlotadas e realmente inseguras. Mas ainda assim é a nossa Faculdade!

É inaceitável que um espaço dedicado á reflexão, ao trabalho, à política, às artes e também à recreação de seus jovens estudantes seja ameaçado pela força policial. Uma Universidade tem o dever de levar sua análise crítica ao limite porque é a única que pode fazê-lo. Seus equívocos devem ser corrigidos por ela mesma. Se ela é incapaz disso, não é mais uma universidade.

A USP não está fora da cidade e do país que a sustenta. Precisa sim de um plano de segurança próprio como outras instituições têm. Afinal, ninguém ousaria dizer que os congressistas de Brasília têm privilégios por não serem abordados e revistados por Policiais. A USP conta com entidades estudantis, sindicatos e núcleos que estudam a intolerância, a violência e a própria polícia.

Ela deve ter autonomia sim. Quando Florestan Fernandes foi preso em 1964, ele escreveu uma carta ao Coronel que presidia seu inquérito policial militar explicando-lhe que a maior virtude do militar é a disciplina e a do intelectual é o espírito crítico... Que alguns militares ainda não o saibam, é compreensível. Que dirigentes universitários o ignorem, é desesperador.

(*Ótimo texto do ótimo professor Lincoln Secco, para ajudar a entender a polêmica em torno da presença da Polícia Militar dentro do ambiente universitário.)

sábado, 22 de outubro de 2011

Lições de Hogwarts aos estudantes da Universidade de São Paulo


“O mundo não se divide entre pessoas boas e Comensais da Morte”, disse a Harry Potter seu padrinho Sirius Black no quinto filme da série – palavras arrancadas, salvo engano da memória, da boca do professor Remus Lupin no terceiro livro.

Antes que este texto suscite algum tipo de expectativa inapropriada, vale a advertência de que não há aqui pretensão alguma de crítica de cinema nem tampouco de crítica literária sistematizada e aprofundada ou de estudo sociológico metodologicamente rigoroso. O que se pretende é apenas compartilhar considerações soltas acerca da série de livros “Harry Potter” bem como sugerir alguma relação entre os movimentos estudantis bruxo e trouxa. Tudo isso faz parte de um esforço paralelo maior de interpretação e compreensão da obra que, infelizmente, não é possível reproduzir nestas escassas linhas.

“Harry Potter” não é uma narrativa arranjada segundo qualquer tipo de maniqueísmo pueril. Ela é em certo sentido complexa – e, quando digo “complexa”, tenho em mente instrumentos apropriados, nem sempre da maneira mais ortodoxa, da obra do brilhante crítico Antonio Candido. Para ele, a “formação do homem” é função da literatura, não no sentido de “pedagogia oficial”, mas como algo que “age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela – com altos e baixos, luzes e sombras”, o que “humaniza em sentido profundo, porque faz viver”. Para desempenhar tal função, alguma complexidade é requisito, e acho que neste ponto a autora J.K. Rowling foi de alguma forma bem-sucedida. A leitura de “Harry Potter” a seu modo educa.

A compreensão que sugiro da narrativa é enquanto arranjo dialético tecido a partir das sucessivas contraposições entre as visões de mundo conservadora e progressista (polarização direita X esquerda, se preferirmos), que culminam ciclicamente em duelos entre Harry Potter e Lord Voldemort. Teríamos então, de um lado, uma visão de mundo democrática e igualitária, aberta ao aprimoramento do ser humano e suas relações por meio da razão e da reflexão crítica. E, de outro, uma assustadora visão em torno de valores de disciplina cega e superioridade bruxa em relação às outras criaturas mágicas (outras civilizações) e aos chamados trouxas (idem), bem como à miscigenação envolvendo os primeiros e qualquer um dos dois últimos “outros”.

É a partir do volume “Harry Potter e a Ordem da Fênix” que passamos a notar um maior amadurecimento político na série. Avançando para a questão mais propriamente estudantil, podemos arriscar aqui algumas curiosas analogias com relação à nossa USP: Armada de Dumbledore como reação à intervenção ministerial em Hogwarts (ocupação da Reitoria em 2007 como resposta à violação da autonomia da USP), nomeação de Dolores Umbridge como “alta inquisidora” de Hogwarts e sua missão de conservar o saber teórico descolado da realidade prática (nomeação de João Grandino Rodas como reitor e sua visão igualmente conservadora), brigadas inquisitoriais (“policiais-estudantes” recentemente anunciados como medida de segurança pela reitoria), rejeição à presença de dementadores em Hogwarts (polêmica em relação à entrada da PM na USP) etc.

A instituição máxima responsável por produção e divulgação do “saber” numa sociedade, bruxa ou trouxa, tem grandes responsabilidades como reduto de pensamento crítico (e a passagem do último livro em que Hogwarts se defende das forças das trevas é de arrepiar nesse sentido). Acontece que o nosso mundo também não se divide entre pessoas boas e a direita, por assim dizer, e idealizar o contrário não é senão sinal de imaturidade. Resgatando desta vez o Candido militante: o socialismo para ele, por exemplo, não é forma de pensar, mas sobretudo uma questão ética, de conduta. Ou seja, seriam as escolhas que fazemos (não na retórica mas frente aos dilemas concretos com os quais nos deparamos no dia a dia da vida em sociedade) que demonstram quem de fato somos e de que lado verdadeiramente estamos.

“Se eu fosse Você-Sabe-Quem, seria assim que eu gostaria que você se sentisse, sozinho, pois desse modo não seria uma ameaça”, disse a Harry Potter sua encantadora colega Luna Lovegood. Quando Lord Voldemort reuniu seguidores e se infiltrou no Ministério da Magia, foi apenas por meio da organização coletiva, a despeito de suas eventuais imperfeições, que Harry e seus companheiros conseguiram resistir, e não de acordo com o individualismo largamente professado em nosso mundo pretensamente “pós-ideológico”.

Sendo assim, podemos dizer que a militância de esquerda no movimento estudantil, apesar dos inevitáveis desapontamentos que nos traz em relação a pessoas e situações, vale a pena. Por um lado, porque nos torna mais fortes na luta para fazer valer nossos ideais (para ter êxito, no entanto, toda forma de dogmatismo e sectarismo precisa ser afastada, haja vista o exemplo da Armada de Dumbledore e mesmo o da Ordem da Fênix). Por outro, porque essa experiência na universidade, com suas luzes e trevas, ao menos nos prepara (como a boa literatura) para a dura vida fora dela.


(Texto originalmente publicado na terceira edição do jornal O KULA, p. 18.)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Mea-culpa necessário

Lá no sítio do Pica-Pau Amarelo dizem que a coisa era assim: a Narizinho tinha o narizinho fino. O personagem mais inteligente, Visconde de Sabugosa, era ruivo como em terras arianas e distantes além-mar. E a serviçal agregada da casa, Tia Nastácia, era uma senhora negra.

Poderíamos inferir com isso, e talvez até com alguma razão, que Monteiro Lobato tinha um pé no racismo. Recentemente, por exemplo, a obra “Caçadas de Pedrinho” foi acusada, pelo Conselho Nacional de Educação, de conter trechos racistas.

Debate semelhante ocorre nos EUA, onde o livro “Hucleberry Finn”, de Mark Twain, vem há anos sofrendo o mesmo tipo de acusação. A saída encontrada pela editora NewSouth Books, que lançará nova edição da obra em breve, no entanto, é assustadoramente perigosa: a versão vai trazer as expressões tidas como problemáticas deliberadamente adulteradas, com a intenção de adequar o livro ao “politicamente correto”.

Essa “sanitarização”, como denomeou Ivan Finotti em matéria recente na “Folha de S.Paulo”, traz uma série de questões em seu bojo e expõe a fragilidade da história na mão de quem a conta. Em outras palavras, carimba o certificado de validade da tese de que não existem verdades absolutas em termos de historiografia.

E tudo isso traz à tona também o compreensível descompasso entre obras literárias antigas e o corrente “politicamente correto”. É uma enorme estupidez lidar com autores antigos cobrando deles a mentalidade que temos nós, muitos anos depois. Por mais visionários que fossem, temos de lembrar que estavam presos a seu tempo, por assim dizer, à estrutura social até então produzida e por todos compartilhada, com as suas devidas nuanças. A literatura expressa temas com significação universal que transcendem o tempo, é verdade, mas o faz à luz da sociedade da época em que é produzida.

E, vejam, digo tudo isso sem absolutamente duvidar da boa-fé de muitos que estão por trás dessas iniciativas. E aqui conto o porquê, justificando o título desta postagem.

Trabalho em editoras de livros há aproximadamente quatro anos e já deparei com uma situação parecida. E cometi um crime, que à época assim não considerava e pelo qual agora me resta, com este texto, tentar alguma redenção. Foi em um trabalho como preparador de textos, à época para a editora Planeta. O livro era um romance estrangeiro de autoajuda fraquinho e trazia uma passagem completamente periférica que me tirou o sono enquanto adolescente militante de esquerda. Não tive dúvidas, substituí “terrorista” por “guerrilheiro” e “maldade” por “violência” – se não me engano. Grande erro.

É preciso ter em mente o que significa esse tipo de interferência. Muito mais proveitoso do que vetar uma obra literária ou adulterá-la seria termos edições bem-trabalhadas, com notas de rodapé que situem a obra em seu contexto. E também termos professores bem-preparados em salas de aula para trabalhar o conteúdo suscitado por tais leituras. No caso de autores vivos, como era o caso do meu trabalho, o adequado é tentar dissuadi-los do emprego de certas palavras e vieses. Caso isso não funcione, fazer o quê, os autores assinam e respondem por suas obras, podendo ser julgados pela crítica, pelo público e pela história. À editora e aos profissionais envolvidos no processo editorial, cabe a decisão da publicação e os procedimentos para concretizá-la.

Interferências desse tipo demonstram imaturidade e são extremamente perigosas, uma vez que agem no sentido de deliberadamente alterar o passado, mudar a história, algo até orwelliano, se formos parar para pensar no trabalho do pobre Winston Smith no Ministério da Verdade, no livro “1984”. Com isso, perde-se a exata noção do processo de desenvolvimento histórico e de construção social da moral vigente. Perde-se o exato significado das transformações sociais e dos desafios dos que lutaram para empreendê-las.

Um autor que comete equívocos, ou é preconceituoso, ou reproduz senso-comum etc., deve sim ser alertado antes e depois da publicação por editores, amigos, revisores ou quem quer que seja que possa fazê-lo. Uma vez publicada, no entanto, a obra materializa-se enquanto expressão artística portadora de elementos de seu autor e sua época. Mudanças podem ser feitas a posteriori, sem dúvidas, mas por iniciativa (ou ao menos com o consentimento) do autor e a consciência por parte deste de que, por mais que queira dar nova forma ao seu produto artístico, a forma antiga já não pertence apenas a ele, mas também à história.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O que vi da 34ª Mostra de Cinema de SP (e o que ficou)

A 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo trouxe, como era de se esperar, ótimos (e raros) filmes ao circuito paulistano, só que por um curto período de tempo. Eu, pela correria e desorganização de sempre, quase não assisti a nenhum. Mas acabei vendo um. Uma experiência, digamos, bastante heterodoxa.

Eu cheguei ao cinema sem saber o que viria pela frente (aceitar convites de última hora dá nisso). Esperava, como os amigos que me acompanhavam, um filme que tratasse diretamente da Revolução Mexicana, com direito a Pancho Villa e Emiliano Zapata no roteiro. Não era nada disso.

O filme "Revolución" é uma série de 10 curtas-metragens feitos por 10 grandes cineastas mexicanos (até aí, estava escrito na sinopse), que teriam buscado, por ocasião do centenário da Revolução Mexicana (desencadeada em 1910), algo como um "compêndio de visões do México atual, com o objetivo de encontrar um eco daquele essencial momento da história do país [a tal da Revolução Mexicana]". Estas últimas informações eu viria a tomar conhecimento apenas no decorrer dos 100 minutos de filme.

"Revolución" é, de fato, um filme antropologicamente bastante rico. Traz à tona questões universais, sim, mas quando o faz é por meio de idiossincrasias, de especificidades locais. Não tenho por objetivo aqui falar longamente do conjunto nem de cada curta (até porque entendo muito pouco dessa tal de "sétima arte"). Gostaria, isso sim, de compartilhar a pertinência de um dos filmetes, do qual sequer me recordo o nome, para a decisão de um eleitor às vésperas do segundo turno da eleição presidencial brasileira.

No curta em questão, existia uma atendente de supermercado que não possuía os dois dentes da frente e usava uma espécie de dentadura. Isso a impedia de alcançar o mais elementar de uma realização pessoal -- a impedia de comer em público, de arrumar um namorado. Ao ser convidada para jantar por um pretendente, a moça buscou de alguma maneira conseguir um adiantamento dos patrões e fazer uma cirurgia, mas eles negaram (os caras praticavam pagamento parcialmente em tíquetes para uso na própria loja, uma coisa meio feudal). Ao procurar seus direitos, a pobre moça seria perseguida e demitida, ficando numa situação ainda pior.

A reflexão a que cheguei é muito simples: embora concorde que com o governo Lula as coisas não tenham melhorado como deveriam, e eu acho veementemente isso, ao menos algumas pessoas passaram a ter condições menos indignas de vida. Eu, como militante político de classe média, posso ter minhas convicções e lutar por elas, mas não tenho o direito de ignorar a realidade, até porque não sofro o que sofrem aqueles que estão verdadeiramente à margem desta sociedade capitalista. Muitas pessoas hoje podem sorrir devido aos paliativos do governo federal.

É fato que pouca diferença eu poderia sentir diretamente entre um governo petista ou tucano. Mas, enquanto houver alguma diferença mínima, ainda que sentida apenas por uma parcela mínima da população necessitada, eu optarei pelo menos pior. Afinal, o meu conceito de revolução é plenamente condizente com barriga cheia e dentes na boca.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Durkheim e a importância de fazer listas


Li hoje na Folha de ontem um interessante texto, que reproduzo abaixo, de autoria do escritor argentino Alan Pauls.

Ele aborda a importância de se fazer listas num mundo em que tanto desejos como objetos de desejo parecem ilimitados. Para ele, a lista cumpre o papel de "colocar certa ordem nos desejos", nos impedindo de "naufragar no mundo".

Concordo. E, antes do término da leitura, tenho de confessar que me vieram à mente alguns dos ensinamentos de Émile Durkheim, um dos fundadores da Sociologia.

Caso eu tivesse mais tempo, retomaria até algumas leituras, para poder fazer uma análise sociológica mais precisa. Como não tenho, serei breve: não há como não ligar essa questão das listas com a preocupação de Durkheim com o estado de anomia pelo qual passava (ou ainda passa) a sociedade.

Grosso modo, a anomia seria o estado caracterizado pela ausência de normas, onde não há uma moral total compartilhada pelo conjunto dos indívíduos que os limite em seus desejos e que sirva como referencial para a "listagem" desses desejos.

Sem essa moral, afrouxa-se a coesão social, e os indívíduos creem-se autossuficientes com relação à sociedade da qual fazem parte e sem a qual nada são.

A partir daí, a busca incessante por mais e mais leva os indivíduos a um estado de insatisfação crônica e ao afastamento dos demais. O resultado? Pode ser o suicídio anômico, do qual Durkheim trata em seu clássico O suicídio.

***

Fazer listas é colocar ordem nos desejos

Fazemos listas desde sempre, desde antes de escrever. Nenhum garoto precisa conhecer o alfabeto ou as regras de concordância para enumerar o que quer em seu aniversário.

Basta ele desejar e compreender que algo tão despótico quanto o desejo requer algum tipo de lógica. É essa a função da lista: colocar certa ordem no desejo. Uma ordem básica, simples, rudimentar, mas absolutamente decisiva. Porque, sem ela, o garoto (ou seja: nós) se perderia. Ficaria à mercê de duas imensidões oceânicas: a do seu próprio desejo (por definição ilimitado) e a de tudo o que o mundo tem para lhe oferecer.

Elementar e ao mesmo tempo milagrosa, a lista é a primeira maneira que temos de não naufragar no mundo e de não aceitá-lo como ele é. Serve para recortar o mundo, capturá-lo, deixar uma marca que fale de nós nele.

Em sua meia língua, o menino que faz aniversário pede: “Um triciclo, um Woody, um chiclete, uma bola, um dragão que cospe fogo”. Essa lista impessoal é o mais pessoal que existe, porque é a intersecção entre seu desejo e o repertório interminável de presentes que espreitam no mundo.

Não é por nada que vivemos fazendo listas. Listas de compras, de convidados, de trabalhos a cobrar, de dias de prisão que faltam ser cumpridos, de filmes a ver, de livros para as férias, de amigos com os quais gostaríamos de tomar um drinque. Nesse gênero seco, mecânico, burocrático, há uma humanidade que comove.

A lista dá voz e forma ao que há, ao que se necessita, o que se ambiciona, o que se realizou, e, nesse sentido, parece condensar quatro ou cinco núcleos de experiência nos quais a espécie toda poderia se reconhecer: desejo, memória, registro, necessidade, sonho.

PAIXÃO

Com seu estilo desafetado, monótono, de repartição pública, a lista com frequência é o testemunho mais precoce e categórico de uma paixão.

O crítico de cinema Serge Daney dizia que o verdadeiro cinéfilo não é apenas aquele que vai muito ao cinema, desenvolve gostos sofisticados e é capaz de alçar-se em armas em nome de um diretor -é sobretudo aquele que passa a experiência do cinema para a experiência da lista: aquele que não para de sistematizar sua pulsão de fã em rankings e outras práticas nas quais confluem o ardor da paixão e a rotina contável.
A suntuosa espetaculosidade do filme de Spielberg (“A Lista de Schindler”) não nos fará esquecer o que a lista de Oskar Schindler foi, o que descobriram aqueles que a encontraram na mala que, em 1974, quando Schindler morreu, reunia o que restava da sua fortuna: uma folha com 1.200 nomes escritos.

TUDO E NADA

Ou seja, um arquivo: algo que é tudo e nada ao mesmo tempo. Como é tudo e nada ao mesmo tempo a lista de desaparecidos apresentada há dois meses por uma testemunha em Tucumán, Argentina, durante o julgamento de dois dos responsáveis pela repressão ilegal movida sob a ditadura de 1976-83.

São nove páginas de tamanho ofício escritas a máquina, com os nomes de 293 pessoas. Ao lado de 195 se leem as iniciais DF (disposição final), um eufemismo para dar nome ao crime. A lista não é nada: não diz quem eram, o que faziam ou porque nunca voltaram a ser nem a fazer o que eram e faziam antes de os terem inscrito nessa folha.

Mas é tudo, porque é o primeiro dado oficial das técnicas repressoras que aparece em quase 30 anos, o primeiro que -produzido pelos próprios militares, com suas máquinas de escrever- comprova que a repressão foi sistemática e metódica. A tal ponto que, como uma inversão macabra das listas apaixonadas do cinéfilo, os exterminadores não puderam resistir à tentação de registrá-la em uma lista.

ALAN PAULS, escritor argentino, é autor de O Passado (Cosac Naify), entre outros.

Tradução de CLARA ALLAIN.

sábado, 14 de agosto de 2010

Lea T, a filha de Toninho Cerezo





Ela nasceu Leandro Cerezo. Sim, Lea T é uma transexual.

Desde que seu antigo filho, hoje filha, começou a fazer sucesso na Europa (estrelando até uma campanha da Givenchy e posando para a Vogue francesa), o ex-jogador e hoje treinador de futebol Toninho Cerezo foge da imprensa como o diabo da cruz. Reportagem do The Observer, reproduzida na semana passada por CartaCapital, mostra como Cerezo ainda não aceitou muito bem essa história. Sabe como é, parece que a família é muito "católica"...

Lea T é bonita. Mas por que será que ela não pode ser bonita e feliz? Aposto que Jesus, se vivo fosse, também não entenderia.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Preciso ler Guimarães Rosa


Na edição especial de número 600 da revista CartaCapital, várias personalidades foram convidadas a responder à seguinte pergunta: "Do que o Brasil precisa?".

As respostas foram as mais variadas, de acordo com a área de atuação e a visão de mundo da pessoa em questão. Entre um Stedile aqui, um Belluzo ali e um Sócrates acolá, surpreendido mesmo eu fui com o texto de Jorge Futado, cineasta e roteirista.

O texto de Furtado carrega o seguinte título: "Ler Guimarães Rosa (e outras dez sugestões para fazer deste um país melhor para nós e os nossos filhos)". Instigante. E mais instigante ainda é o trecho citado do livro Grande Sertão: Veredas, do qual reproduzo uma parte abaixo.

"Por que o governo não cuida? Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil e tantas misérias... Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons...”

Política de verdade é assim. Não basta ideias arranjadas, infelizmente (ou felizmente, sei lá). O buraco é bem mais embaixo. E Guimarães Rosa, pelo visto, ajuda a iluminar tão tortuosa trilha. Preciso lê-lo urgentemente.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Profissão polemista


O polemista profissional Luiz Felipe Pondé conseguiu se superar em sua coluna semanal de absurdos publicada no jornal Folha de S.Paulo. A tática é tão simples quanto antiga: disparar ofensas contra tudo e contra todos. Na verdade, contra quase tudo e quase todos.

Ele tenta postular-se como um verdadeiro cético, pois, aparentando estar desprovido de ideologias, assim crê dispor de legitimidade para criticá-las. Ele não teria, de acordo com o que diz, ideais ou esperanças. E emenda: “E suspeito de quem queira me dar uma [esperança]”. Eu, por meu turno, suspeito justamente quando alguém vem com esse papo furado de não ter ideal – porque das duas uma: ou ele tem mas não sabe que tem (ingênuo) ou ele tem e está escondendo (mau-caráter).

Em seu texto desta semana, “Sem esperanças”, há vários trechos que me fariam escrever linhas e mais linhas como réplica (justamente o que ele busca e o que o faz continuar na Folha, mesmo depois das mudanças editorias pelas quais o jornal passou no último período e sobre as quais eu ainda vou escrever neste blogue).

Bom, deixando de lado o machismo perceptivelmente forçado, é possível encontrar no texto coisas como esta: “Não saio para jantar com gente que quer mudar o mundo e que tem ideais. Prefiro as que perdem a hora no dia que decidem salvar o mundo ou as que trocam seus ideais por um carro novo.”

O que Pondé tenta vender como ousadia inovadora (e, por que não dizer, revolucionária) tem nome: quem não quer mudar o mundo, mas conservá-lo como está, é conservador e está à direita na arena política. Por que ele participaria do debate político se não tem ideal? "Participo do debate público pra atrapalhar a vida de quem quer mudar o mundo ou de quem tem ideais".

Ou seja, Pondé tem lado e sabe disso. E, digamos, não é o mais humano e fraterno deles. É o lado da elite, dos banqueiros, empresários, ruralistas e milhões de etc. Porque destes eu nunca vi o incendiário colunista falar mal.

“Pergunto-me por que não proíbem professores de pregar o marxismo e toda a bobagem da luta de classes.” Uma coisa é um conservador sério como o professor de Filosofia da USP José Arthur Giannotti, que ao menos reconhece a importância do pensador Marx. Outra, sensivelmente diferente, é o sensacionalismo comercial do Pondé. Mas quanta petulância!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Classe média ou classe medíocre?


Na edição 572, de três semanas atrás (capa ao lado), a revista CartaCapital trouxe em sua páginas uma matéria sobre o imperdível blog The Classe Média Way of Life (que passo a listar na minha barra de sites recomendados).

Com ilustrações do camarada Maringoni (que, segundo o próprio autor do blog, captou o espírito de seus escritos) e texto complementar do Mino Carta (sempre melhor quando não está a tratar do caso Battisti), a matéria se torna uma saborosa degustação do que se pode, com fartura, encontrar no blog: um humor de aguçado vigor crítico, absolutamente sarcástico (e, como todo bom sarcasmo, é de uma sutileza incrível, capaz de deixar de boca aberta, sem entenderem nada, os representantes da classe média brasileira, explorada aspirante a exploradora).



E vejam como são previsíveis os "médio-classistas". Duas semanas depois, a revista (?) Veja traz como matéria de capa o que, segundo o blog acima citado, representa um "deleite sem limites para a classe média". Revistinha elitista, supérflua e mentirosa + defesa das obras de "autoajuda" = "orgamos múltiplos espontâneos nas salas de estar dos apartamentos e nas esperas dos consultórios odontológicos Brasil afora".

Segundo a Veja, é na autoajuda que "milhões de brasileiros encontram [...] soluções reais para seus problemas". Não é verdade. Os "ajudados" existem, sim, mas não são milhões. Formam, ao contrário, um clube seleto, composto dos que escrevem, publicam e/ou vendem esses livros, bem como daqueles que se utilizam dessa anestesia intelectual, que se contrapõe à reflexão crítica, para fortalecer a sua dominação.

Não digo mais nada, não quero estragar a surpresa. Acessem The Classe Média Way of Life, vocês não vão se arrepender.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Ensino presencial, PM à distância!*

Assistam à barbárie. O responsável por isso quer ser presidente da república. E já foi, tempos atrás, líder no movimento estudantil. Do que mais ele é capaz? Creio que nem ele nem Deus saibam. É preciso ter cuidado.



*Título da postagem roubado do nick da amiga Ori no MSN. Não sei a quem devo dar o crédito, mas que fique aqui registrado que a espirituosa sacada não foi tida por mim.


O movimento estudantil da USP e a ofensiva conservadora

A conjuntura atual, não somente nacional como internacional, é marcada centralmente pela crise econômica deflagrada nos EUA no segundo semestre de 2008. Um cenário como este proporciona grandes perspectivas de movimentação. Muitas pessoas, que perdem seus empregos ou pioram de vida, passam a ver que não têm mais muito a perder e tendem a descer de cima do muro em busca de saídas políticas para sua insegurança econômica. Mas nisso reside um perigo, pois pessoas podem fazê-lo para qualquer um dos lados, esquerda e direita.

Adotemos aqui critérios de "esquerda" e "direita" amplos, não apenas ligados a partidos políticos que são, ou dizem ser, de um lado ou de outro. E ignoremos a definição de "centro", que nada mais é do que uma posição tática oportunista e cômoda de quem está de um dos lados, mas prefere fingir-se neutro ou travestir-se de moderado. Para "esquerda", pensemos nas forças progressistas, estendendo o rótulo a todos aqueles que não aceitam como naturais as desigualdades existentes na sociedade e buscam transformá-la a fim de promover justiça social. Para "direita", admitamos a classificação de quem busca a manutenção da ordem estabelecida, por achá-la natural ou cômoda, com suas injustiças e desigualdades, estendendo a classificação até mesmo àqueles que aceitam fazer concessões, como praticar algum tipo de filantropia vazia de vez em quando.

A crise econômica por que passamos é considerada por estudiosos diversos como a mais grave desde a de 1929. Esta, há 80 anos, gestou um sentimento de revolta que em muitos países, como Alemanha e Itália, cresceu e acabou por se tornar o monstro mais tarde batizado de nazi-fascismo. Nada impede que isso volte a acontecer, e uma análise mais atenta pode indicar que uma movimentação conservadora é algo mais real do que eventualmente possa parecer.

Peguemos o caso da Universidade de São Paulo (USP). Existem três eixos que, aprovados em assembléia de estudantes, vêm sendo trabalhados ao longo deste ano: "nenhum centavo a menos para a educação", "abaixo a Univesp" e "abaixo a repressão". Todos eles podem ser pensados como reação a ataques perpetrados pelo movimento conservador em curso. Quem tiver dúvidas que siga adiante com a leitura.

Cortar verbas destinadas à universidade pública atende aos interesses dos setores dominantes por diversos motivos. Vejamos: a precarização dela abre espaço para a indústria do ensino superior privado superá-la (como já acontece nos níveis fundamental e médio). E promove o estrangulamento financeiro de cursos como os proporcionados pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), que, pelo caráter de reflexão crítica sobre a sociedade que eles têm, não interessam ao mercado, cujo interesse é o lucro e não a solução dos problemas das pessoas. Cursos que podem ser "lucrativos", no entanto, como os da Escola Politécnica, têm a oportunidade de fugir da asfixia pulando na canoa furada do financiamento privado. Retira-se a autonomia ou mina-se a qualidade, ou os dois, se pensarmos que qualidade implica autonomia. São enquadrados todos, de uma forma ou de outra, no que espera de nós o Deus Mercado.

Instituir a Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp) com o discurso de que ela expandirá as vagas da USP para alunos que antes ficavam de fora é uma estratégia enganadora, pois oculta que serão vagas sem qualidade. O ensino à distância pode até ter sua função como complemento à formação ou para casos específicos, mas o programa em questão é destinado à licenciatura em ciências. Como formar um professor que aprende a dar aulas sem as ter antes? É um contra-senso e empurra a educação brasileira para um círculo vicioso que pode levar à instituição dessa modalidade não-presencial em todos os níveis e cursos, com lições e leituras entrecortadas por bate-papos e visitas a sites de relacionamento. Sem falar que isso priva a formação docente da possibilidade de organização, discussão e construção coletiva do conhecimento. É a individualização imposta para conter a união que faz a força. Absurdo, mas útil ao governo do Estado, preocupado em melhorar estatísticas, aumentando o número de professores da rede estadual com diplomas pregados na parede como se isso por si só melhorasse o ensino precário oferecido por José Serra e sua turma.

A entrada da Polícia Militar no campus Butantã da USP encarrega-se de demonstrar a pertinência da luta contra a repressão. Há trinta anos, portanto desde a ditadura (dura, e não branda), isso não ocorria. Contudo, as elites, em especial por meio da chamada "grande mídia", ignoram a gravidade do fato. Defendem, contra os piquetes, o direito de ir e vir previsto na Constituição, como se as catracas que todos os dias condicionam esse direito dos cidadãos ao poder econômico de empresários do setor de transportes não existissem. É a velha história do "para os amigos tudo, para os inimigos a lei".

Quando se verificam as incansáveis tentativas de revisão da história do país, como a criação do neologismo "ditabranda" da Folha de S.Paulo, começa-se a entender melhor alguns porquês. Na ditadura, jornais do grupo Folha funcionavam como sustentáculo do regime. Agora, eles querem ao mesmo tempo limpar seu histórico e legitimar as forças de repressão à esquerda, forças estas que estão dispostos a usar, como têm demonstrado, para garantir uma saída à direita para a atual crise, com a manutenção da ordem e com a conta sendo paga por aqueles que trabalham, enquanto banqueiros e especuladores pegam o banquinho (gentilmente financiados pelo Estado) e saem de mansinho.

Mantém-se, assim, o país longe de experiências de esquerda como as da Venezuela, da Bolívia e do Equador. Durante o governo militar, guerrilheiro virava terrorista na versão da mídia. Hoje, favelado vira traficante, e militante de movimento social, baderneiro e vagabundo. É a imoralidade avançando para desmoralizar quem ainda preserva um pouco de integridade, mesmo que em meio à adversidade.

Outros exemplos poderiam ser citados para demonstrar a articulação das elites para impor o seu projeto de país, que transcende a universidade, como a perseguição ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a inversão de papéis no curso das investigações da Operação Satiagraha, a exposição dada pela mídia ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, espaço maior do que sua função permite e do que sua capacidade intelectual merece etc. etc. etc.

É por tudo isso que o movimento estudantil da USP não pode assistir passivamente a essa ofensiva. O momento exige um enfrentamento com todas as armas de que este dispõe, e ele não pode se dar ao luxo de desperdiçar nenhuma. A conjuntura mudou e uma greve agora não só é justa como também oportuna. Mais estudantes despertaram para a mobilização após a invasão do campus pela PM; o risco que uma greve precipitada representava, de alargar ainda mais o abismo que separa a massa de estudantes daqueles que participam do movimento estudantil, diminuiu. A necessidade, porém, de agir de modo conseqüente permanece. A falta de disputa ideológica nos cursos e o sectarismo podem jogar no colo do conservadorismo muitos estudantes menos envolvidos nos debates.

Para fazer o contraponto a esse movimento reacionário mais amplo, temos de aproximar estudantes diversos, acumular forças e construir a unidade da esquerda para uma greve na universidade que alcance o fim desejado, visto que ela é não um fim em si mesma, mas um meio para algo maior. A hegemonia da direita atrai para ela a mediocridade e força a esquerda a sofisticar sua atuação. Chegou a hora de unir todos aqueles que não desistiram de lutar por dias melhores, sem intrigas entre si. Nenhum centavo a menos para a educação. Abaixo a Univesp e a repressão. Paz entre nós e guerra aos senhores.

Artigo publicado originalmente no Correio da Cidadania, em 11 de junho de 2009.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Educação para libertação

Recentemente, encontrei com meu primo Douglas, um pouco mais velho e um tanto distante (mora em Indaiatuba, interior de São Paulo). Enfim, nunca fomos de conversar muito, mas nesse último encontro as coisas mudaram um pouco. Conhecido na família por minha militância política, costumo ser convidado a opinar a respeito de alguns assuntos. (Às vezes sou chamado simplesmente para ouvir desbafos, tudo bem, não importa, me sinto contente do mesmo jeito.) O que importa nesse caso é que conversamos brevemente sobre educação - mais precisamente sobre a visão da revista (revista?) "Veja" sobre o assunto.

O resultado desse bate-papo foi a volta à ativa deste humilde articulista às páginas do portal de mídia alternativa Correio da Cidadania. Aliás, escrever para lá é uma das coisas que mais me fazem feliz. Douglas, obrigado. "Correio", obrigado. E (por que não?) "Veja", obrigado. A revolta que sinto pelos absurdos publicados por vocês são um excelente combustível para mim, faz com que eu escreva com vontade e determinação.

Eis o link:

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A educação de "Veja": o Brasil de resignados que não queremos ser

Em recente encontro com um parente atualmente um pouco distante, surgiu uma conversa sobre educação que me trouxe uma salutar reflexão. O querido primo, leitor de "Veja", defendeu a concepção da revista sobre o tema, cuja última exposição foi feita na edição de 3/9/08 por Gustavo Ioschpe, economista supostamente especialista em educação e um dos arautos da direita raivosa que, embora caricata, representa um enorme perigo pelo esforço incansável de sempre para transformar mentiras em verdades e para vender gatos como se velozes lebres fossem (com certeza, aulas com Goebbels, ministro da propaganda de Adolf, ele mesmo, o Hitler).

Nos textos de "Veja", que não é imparcial como se auto-declara – isenção, aliás, inexistente em tudo que sai de um ser humano dotado de experiências e valores –, não há sequer responsabilidade, que é o mínimo que se espera não só de um jornalista como também de todos os outros profissionais deste mundo. Seria passível de respeito a teoria defendida pelo periódico caso não fosse manifesta a sua falta de interesse por um país melhor (entenda-se melhor para a maioria). O tal Brasil que eles querem que sejamos é ainda pior do que esse em que já vivemos. Ainda mais injusto e desigual. Para eles, afinal, a desigualdade se resume à excessiva capacidade de alguns ante a incompetência da grande maioria. Tal raciocínio, ao contrário do que possa parecer, é mais fruto de má-fé que de ignorância. Vejamos.

"Veja" utiliza uma premissa válida para chegar a uma conclusão – premeditada – absolutamente equivocada e ameaçadora à educação brasileira. É preciso, segundo a revista e aqueles que lá manifestam o seu ódio à fraternidade e à solidariedade, que a educação seja eficiente e ofereça resultados. Como todos os seres humanos dotados de ao menos dois neurônios, concordo. E é daí que se chega a uma conclusão surpreendentemente mágica: para que se alcancem bons resultados, basta que as escolas sejam administradas como empresas privadas. Respiremos fundo.

A educação deve, sim, funcionar com o objetivo de oferecer bons resultados. Mas o questionamento que deve ser trazido para reflexão – atitude pouco incentivada por "Veja" – é o seguinte: que resultados as instituições de ensino devem proporcionar? Eis o ponto: as escolas não podem ser administradas como se fossem empresas privadas, pois os resultados buscados nestas são os lucros de uns poucos à custa do trabalho de tantos outros. Uma educação de qualidade deve objetivar a construção de uma sociedade justa e harmoniosa, onde exatamente não funcione a lógica capitalista de competição predatória e concentração de privilégios nas mãos de uma pequena elite, não raro ignorante, egoísta e perceptivelmente não merecedora da posição que ocupa, ela mesma prova incontestável da farsa da chamada "meritocracia".

Professores, os profissionais mais importantes para que os resultados acima sejam atingidos, não podem ter seus empregos, salários e motivação submetidos ao que o "deus mercado", seguindo leis ininteligíveis, queira oferecer. É preciso, antes de tudo, que eles sejam valorizados. Ao contrário do que faz a revista, que os ataca, ofende ou menospreza. E as determinações do mercado nem sempre são as melhores para a sustentabilidade do planeta e para o equilíbrio da vida em sociedade. O meio ambiente que o diga.

Um programa educacional decente deve buscar a democratização absoluta do conhecimento e do acesso à cultura, para a formação de cidadãos conscientes e críticos, capazes de utilizar o saber para a transformação da realidade que os cerca. Assim nos ensinou o revolucionário pedagogo Paulo Freire, o educador brasileiro mais conhecido e respeitado no mundo – desdenhado, é claro, pelo panfleto travestido de revista. Esse tipo de eficiência e resultado não pode ser mensurado em balanços, provas de múltipla escolha ou outros documentos estritamente técnicos. É uma questão sobretudo humana, que até algumas nações capitalistas parecem perceber.

Não é à toa que a educação de países tidos como exemplares seja encarada como serviço público. Sem lógica empresarial, mas como investimento social. Não é por acaso também que a educação aqui seja uma vergonhosa calamidade. São os ignorantes e alienados formados por nossas escolas que sustentam no poder quem rouba (mas diz que faz) e quem promete mundos e fundos, mas não faz nada além do que sempre foi, ou deixou de ser, feito.

Educação não é e não pode ser, em hipótese alguma, tratada como mercadoria. Ela é um instrumento de libertação, é emancipação. Como tal – e somente como tal –, ela pode ser capaz de nos garantir a perspectiva de um futuro digno da capacidade inesgotável do ser humano, que vai muito além da aptidão de alguns para falar abobrinhas.

terça-feira, 18 de março de 2008

A criatividade como forma de luta contra o preconceito

O feriadão do Dia da Consciência Negra amanheceu ensolarado, e eu pretendia participar da atividade promovida pela Educafro (Educação e Cidadania para Afrodescendentes e Carentes) na região central da cidade. Não sabia direito o que iria acontecer, mas queria ir de todo o jeito.

Contudo, acabei acordando mais tarde do que deveria e perdi a missa que deu início à programação da entidade para o Dia de Zumbi. Mas, graças aos orixás, cheguei a tempo de presenciar uma das maiores demonstrações de criatividade que presenciei nos últimos tempos. (E vale deixar registrado que eu não tinha a intenção de escrever quando saí de casa. Aliás, eu não tinha sequer levado papel ou caneta para isso. Mas para tudo nesta vida dá-se um jeito... )

Aproveito a oportunidade para agradecer à Vivian, minha amiga (que eu considero irmã) e responsável por eu conhecer a Educafro, que, nesse feriado, esteve ao meu lado durante todo o tempo. Agradeço também ao Douglas – companheiro que coordena o movimento –, mentor da idéia fantástica, que reportei no texto abaixo.

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ONG incentiva doação de sangue para celebrar o Dia da Consciência Negra

Militantes da ONG Educafro inovaram no modo de celebrar a data destinada à comunidade afrodescendente. Por volta das 9h, os integrantes da organização se concentraram no Largo São Francisco, após a realização de uma missa na paróquia ali localizada. Eles tinham um objetivo um tanto quanto inusitado: doar sangue.

Esse ato simbólico, segundo Douglas Belchior, um dos coordenadores do movimento, teve como objetivo mostrar a disposição do povo negro em doar seu sangue, que durante os muitos anos de escravidão teria sido arrancado à força, mas que agora seria oferecido de maneira espontânea e solidária àqueles que dele necessitam. Afinal, para a Educafro, a data não existe apenas para festa, mas sobretudo para reflexão, exercício de cidadania e reivindicação. E a pauta levada por eles é grande, inclui mais verbas para educação, cotas para negros, aprovação do Estatuto da Igualdade Racial e aplicação efetiva da lei 10 639, que institui a obrigatoriedade da disciplina História e Cultura Afro-brasileira no currículo oficial dos estabelecimentos de Ensino Médio e Fundamental do país.

A caminhada saiu do Largo São Francisco em direção à Avenida Paulista, onde aconteceria a IV Marcha da Consciência Negra, da qual participam diversas entidades e movimentos sociais. A pausa para a doação aconteceu aproximadamente ao meio-dia, no Hospital Beneficência Portuguesa, na região central. Mesmo debaixo de sol forte, boa parte das mais de 5 mil pessoas presentes quiseram doar sangue, o que só foi permitido a 223, devido à pequena estrutura da unidade receptora.

De acordo com os responsáveis pela atividade, o hemocentro utilizado foi o único da região que se dispôs a receber os doadores no feriado e a iniciativa permitirá que aqueles que não puderam realizar a doação na ocasião se animem a fazê-lo em outra oportunidade, dirigindo-se em pequenos grupos a hospitais de suas próprias regiões.

Não houve incidentes nem tumultos. Ao contrário, os freis ligados à Educafro e os policiais militares responsáveis pela segurança trocaram elogios em relação ao comportamento de ambos os grupos durante a atividade.

Este texto foi publicado originalmente no
Correio da Cidadania, em 21 de novembro de 2007. Disponível em:

Tropa de Elite, Luciano Huck, Ferréz e a polêmica acerca da violência

O texto a seguir foi escrito em meio às discussões sobre violência, suscitadas pelo fenômeno cinematográfico Tropa de Elite, e aborda mais especificamente a polêmica que invadiu as páginas do jornal Folha de S.Paulo após Luciano Huck ter seu Rolex roubado. O apresentador global escreveu um artigo, que foi contestado por outro posterior elaborado por Ferréz, escritor da periferia. O que fiz foi uma síntese disso tudo, mostrando o que penso a respeito.

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“Grande mídia”: a verdadeira tropa da elite

Logo no primeiro dia deste mês de outubro, o jornal Folha de S.Paulo publicou um artigo fruto da indignação do apresentador global Luciano Huck. Ele estava horrorizado, coitado. Havia acabado de perder o seu Rolex em um assalto. Aproximadamente uma semana depois, veio a resposta da periferia. O rapper e escritor Ferréz, em artigo publicado pelo mesmo jornal, tentou mostrar a face humana do assaltante, chamado por ele de “correria”. Embora a intenção de se contrapor veementemente à posição elitista de Huck seja louvável, Ferréz acabou, por meio de seu desabafo impulsivo, errando a mão. E deu um tiro não só em seu próprio pé mas no de muitas outras pessoas.

Boa parte da imprensa aproveitou a brecha para acusar todos os defensores dos direitos humanos e de uma visão sociológica do crime de fazerem apologia ao mesmo. De acordo com ela e com o nosso querido apresentador, o certo seria chamar a tal tropa de elite – cruel e desumana como a do filme –, pois isso, sim, seria tratar segurança pública de maneira séria. Aproveitou-se, também, para vender a idéia de que ter muito dinheiro em um país vergonhosamente injusto – desde que se paguem os impostos em dia – nada tem a ver com a desigualdade social e, muito menos, com a criminalidade. Curioso foi o fato de a seriedade com que o assunto foi tratado não transcender o revanchismo, pois o que mais sugere Luciano Huck além de repressão? Em algum momento ele se questionou acerca da origem da criminalidade ou de como fazer para que esta triste manifestação da degradação humana deixe efetiva e definitivamente de acontecer?

Luciano Huck tem todo o direito de dizer o que lhe der na telha. E Ferréz também. A nossa democracia garante isso. O que ela ainda não garante e é o que há de mais cruel nessa “ditadura midiática” em que vivemos é que todos têm o direito de falar, mas poucos, o de ser ouvido. E a esse filtro costuma-se dar o nome de “grande mídia”. O que Huck e sua tropa não têm é outra coisa, chama-se legitimidade. Como bem questionou o “correria” de Ferréz, como pode alguém levar no pulso algo que proporcionaria moradia para muitos seres humanos abandonados ao relento? E o que Huck tem a dizer dos roubos praticados contra o povo brasileiro com a proteção da lei – e de boa parte dos “neo-indignados” de plantão –, como a Desvinculação de Receitas da União (DRU), o pagamento dos juros da dívida pública, as privatizações do patrimônio nacional, entre tantas outras medidas que perpetuam as desigualdades e os conflitos sociais?

Em tempos de valorização do chamado “marketing pessoal”, ter uma ONG não basta. Ter status de socialmente responsável – ou fazer algo para poder repousar um pouco mais tranqüilamente a cabeça no travesseiro – não é suficiente. É oportunismo. A garotada da entidade de Luciano Huck é preparada para ingressar no mercado de trabalho, buscar ascensão social e tornar-se bem-sucedida, como o apresentador. Se não conseguirem, as crianças estarão preparadas, também, para aceitar que a culpa é tão-somente delas mesmas e de sua própria incompetência. E sempre haverá crianças carentes necessitadas de projetos assistencialistas como o de Huck, uma vez que eles não as habilitam a refletir de maneira consciente, independente e crítica, ou seja, não as emancipam.

Só há ricos porque existem também os pobres. É óbvio. Não se trata de fazer apologia ao crime, mas de colocar as coisas em seu devido lugar. Não duvido da competência profissional de Huck, assim como não vejo motivos para a desproporção de seu salário em relação ao de um bom professor, por exemplo. Todos os que optaram por uma vida com recursos que destoam daqueles de que o conjunto da população dispõe e do racional e humanamente aceitável têm, sim, responsabilidade pela criminalidade. E devem estar cientes disso. Mas o “rolo” em torno do Rolex não foi justo, como afirmou Ferréz. Vivemos em um sistema injusto e, conseqüentemente, as relações dele provenientes são igualmente injustas. Não é aceitável que alguém seja sentenciado, por não vislumbrar outra saída, a cometer crimes para sobreviver. Assim como não é possível tolerar que vidas sejam colocadas em risco por conta disso.

No momento em que houver verdadeiramente igualdade de oportunidades e eqüidade dos resultados obtidos com o trabalho de cada um, poderemos então dizer que o criminoso pratica ações reprováveis porque assim deseja ou porque assim escolheu. Enquanto esse momento não chega, a questão continua sendo muito mais complexa. Com direito também a crimes do colarinho branco e morte de pessoas humildes, acontecimentos que, não raramente, passam um pouco mais distantes da mira da tropa da elite.

Este texto foi publicado originalmente no Correio da Cidadania, em 16 de outubro de 2007. Disponível em:

O livro didático revolucionário

O texto abaixo, publicado no Correio da Cidadania em 3 de outubro de 2007, é uma resposta indignada aos grandes meios de comunicação que, comandados por Ali Kamel (das Organizações Globo), promoveram a desmoralização pública do professor Mario Schmidt e de seu trabalho. No caso, trata-se da coleção Nova História Crítica, que foi caracterizada como uma espécie de “panfleto comunista”. Em seguida, coloquei quatro comentários feitos por leitores do site, dos quais dois são professores de história. Aliás, o feedback foi ótimo. Recebi muitas mensagens de apoio, inclusive do diretor editorial da Nova Geração, o grande Arnaldo Saraiva.

O livro é revolucionário em todos os sentidos, mas não manipula ninguém. Do design à linguagem, o livro revolucionou o mercado editorial, conseguiu se inserir no mundo de crianças e adolescentes e cativou também professores de história dos quatro cantos do país. O autor e a editora Nova Geração merecem parabéns, e não um veto do MEC, como aconteceu.

Eu estudei, nas 7ª e 8ª séries, com os livros de Mario Schmidt e, por isso, tenho credenciais para falar sobre eles. Ao contrário de alguns jornalistas irresponsáveis que andam escrevendo besteiras por aí...

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A “Nova História Crítica” e a crítica da velha elite

Em um artigo repugnante – que mais parecia um choramingo direitista – publicado no jornal O Globo (18/9/2007), Ali Kamel dedicou-se a atacar o livro Nova História Crítica – 8ª série, de Mario Schmidt. Retirou do contexto uma série de trechos, classificados por ele como “os piores”. Um deles apresentava um quadro comparativo entre o capitalismo e o ideal marxista. O quadro, muito bem elaborado pelo professor Mario e execrado pelo jornalista, mostra também o que aconteceu no chamado “socialismo real”, sem poupar críticas. Pequeno detalhe que o jornalista global “esqueceu” – ou omitiu para poder, assim, apresentar o livro como uma cartilha marxista para doutrinar criancinhas inocentes. A verdade às vezes dói, e a apresentação integral do quadro, por si só, esvaziaria as acusações apaixonadas feitas por Kamel.

As Organizações Globo – corretamente criticadas no livro por seu histórico de manipulações políticas – não deixaram barato e pressionaram o Ministério da Educação (MEC), que veio a público anunciar que já havia vetado a participação da obra no PNLD (Programa Nacional do Livro Didático), que oferece ao professor de escola pública uma lista de livros para que este adote o que considerar melhor, ficando o governo responsável pela compra e distribuição. Cerca de 50 mil professores de todo o país, das redes pública e privada, já escolheram a coleção Nova História Crítica, tornando-a um verdadeiro sucesso editorial. A atitude do MEC, ao reprovar a obra em sua avaliação, atentou contra todos os princípios de liberdade: a de escolha, a de expressão e, sobretudo, a de se poder aprender e refletir sobre os acontecimentos históricos de maneira independente e crítica, indo muito além da “decoreba” de nomes e datas importantes – como querem os defensores desse obsoleto modelo tradicional.

Após O Globo trazer a polêmica acerca do livro à tona, os outros grandes jornais, como Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo, endossaram as críticas de Ali Kamel. Supostamente em nome da verdade e da liberdade, esses veículos repetiram os trechos apresentados por Kamel e, de maneira irresponsável, desqualificaram um valoroso trabalho. O modo superficial e manipulador com que a questão foi tratada é assustador. Os meios de comunicação já citados apontaram erros de português no livro, que podem até existir, um aqui e outro acolá; erros que vez por outra também freqüentam as páginas desses mesmos jornais. Entretanto, erros de português podem ser corrigidos em uma próxima edição. O que mais chama a atenção é a coragem de, sem uma leitura integral prévia, os jornais acusarem o livro de conter erros conceituais, o que é uma mentira daquelas que só se consegue contar quando se tem uma enorme cara-de-pau ou um sangue demasiado frio.

Ah, a liberdade. Fundamento tão citado como a principal qualidade da sociedade capitalista. Mas que liberdade é essa senão a plena liberdade de se calar e obedecer às predeterminações da fraterna e intuitiva elite política e econômica? Pois é. A elite determina, o povo cumpre e a roda da história continua a girar. É assim que prega a hipócrita e pretensamente democrática cartilha liberal burguesa. Atender ao predeterminado, ser conivente com a sociedade injusta que aí está é ser imparcial; desafiá-la, julgá-la ou mesmo colocá-la sob uma simples análise crítica é ir contra a democracia, é ser tendencioso. E foi exatamente assim que aconteceu no caso do livro do professor Mario. (Que previsíveis se tornaram os burgueses... Onde estará a criatividade capitalista, geralmente atribuída à premissa – um tanto desumana – da competição?)

A obra em questão é extremamente didática – ao contrário do que disse a Folha de S.Paulo em editorial chamado “A lata de lixo da História” (20/9/2007). Contém charges, gráficos, ilustrações e outros recursos que facilitam a compreensão do período estudado e que dificilmente são vistos em outros livros. E, o que é mais importante, não há nele a pretensão de ser o dono da verdade. É com humildade que Mario Schmidt escreve, logo nas primeiras páginas, que o livro poderia ter sido escrito de outra maneira, tão válida quanto a dele. E deixa o alerta: “Por isso, nunca se esqueça de que duvidar e questionar são atividades muito saudáveis”. Se os jornalistas envolvidos nas matérias e editoriais sobre Nova História Crítica tivessem se dado ao trabalho de ler – ao menos – as suas dez primeiras páginas, certamente teriam aprendido muito. E, quem sabe, escrito muito menos bobagens.

Este texto foi publicado originalmente no Correio da Cidadania, em 3 de outubro de 2007. Disponível em:
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/939/

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“Quero registrar que compartilho da mesma revolta do autor desse artigo. Tive o privilégio de estudar com esse livro da 6ª à 8ª série e hoje faço faculdade de História. Bom saber que um simples livro didático tem incomodado tanto...”

Clara Couto

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“Grandioso o comentário de Max Luiz Gimenes sobre o veto ao livro Nova História Crítica. Eu, como uma das educadoras que sugeriu a adoção do mesmo na escola em que atuo, sinto-me menos angustiada ao saber que nem todos estão cegos e inertes com relação a uma questão tão absurda e abusiva como esta!”

Joelma Martins

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“Esse livro é o melhor livro de História com que já estudei. Esse senhor da Globo não pode fugir do passado dessa organização manipuladora. Me admira o que o MEC fez - onde está a democracia?”

Sandra Cristina de Oliveira Benita

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“Atualmente, não estou trabalhando com essa coleção, mas já o fiz com outros livros de Mário Schmidt. Acho-os muito bons e faço questão de tê-los em casa e utilizá-los sempre que preciso. Certamente, a decisão de retirá-los do PNLD foi tomada sem que se tenha feito uma análise da obra. É mais uma prova de que somos governados pelos interesses dos poderosos.”

Sônia A. Duarte

Aquele tal de movimento "Cansei"

Os dois textos abaixo são sobre o Cansei, movimento que felizmente não vingou, e sobre o qual quase não se fala mais atualmente. Mas, mesmo assim, faço questão de postá-los, pois a onda pode voltar. O primeiro é uma carta, publicada no Painel do Leitor do jornal Folha de S.Paulo em 5 de agosto de 2007. A divulgação da minha indignação na Folha animou-me a escrever algo maior, e o segundo texto é justamente esse algo maior, um artigo publicado no Correio da Cidadania em 29 de agosto de 2007.

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Folha de S.Paulo - Painel do leitor - São Paulo, domingo, 5 de agosto de 2007

Não cansei, enchi o saco. Enchi o saco de ver pessoas dormindo na rua, passando fome, sede ou frio; de ver crianças e idosos nas ruas, abandonados, sem educação ou saúde; de assistir a seres humanos privados da mínima dignidade bem debaixo do nariz daqueles que hoje, com uma hipocrisia sem tamanho, tentam se vender como "indignados". Cansados estão os negros, os índios, os homossexuais e todos os outros grupos historicamente discriminados e excluídos. Enchi o saco de ler cartas de sujeitos da classe média que ousam achar que sustentam o Brasil. É com o suor e o sangue do povo que este país sobrevive. A injustiça está em alguns terem muito, e outros não terem nada. Se as elites não querem pagar mais impostos que o restante da população, por que não se distribui a renda de maneira igualitária? Aposto que muitos necessitados trocariam uma vida de miséria isenta de impostos por uma vida em condições dignas - ainda que o Leão lhes dê uma bela mordida. Eis que surge o movimento "Enchi o saco", em oposição ao "Cansei" e ao "Cansamos".

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Não cansei, enchi o saco

Após anos de corrupção e de uma política aeroportuária desleixada, não foi sem surpresa que o Brasil recebeu, na última semana de julho, o lançamento do “Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros” – o famigerado “Cansei”. O movimento pretende-se “apartidário”, mas as circunstâncias acabam impedindo que essa inverdade se prolifere, e a pergunta que não quer calar é: onde estavam os “cansados” em tempos de crise do governo FHC? – mas, ainda que essa pergunta quisesse ser calada, não encontraria resposta plausível. Dizem que a população está deixando o comodismo. Dizem até que é melhor revoltar-se tarde do que nunca. Lorota. As verdadeiras razões estão bem guardadas, talvez em cofres de bancos na Suíça.

Dirigido pela OAB-SP e com o apoio de vários setores a serviço da elite – como FIESP, FEBRABAN e outros – o movimento ganhou força ao se aproveitar, de maneira baixa e oportunista, do caos aéreo que tem assolado o país. Até o mensalão foi tirado do baú conservador. (Hoje, certamente, o lulo-petismo se arrepende profundamente por não ter inventado um nome criativo para a compulsiva corrupção tucana, pois “corrupção” e “roubalheira” são palavras muito genéricas.) Sem respeitar o sentimento dos envolvidos na tragédia, a direita “rebelde” aproveitou o acidente da TAM para realizar o marketing de seu movimento. Muitos, de maneira inocente, caíram nessa ladainha, como se cai no golpe do bilhete premiado, e engrossaram as fileiras do “Cansei”.

Como era de se esperar, a reação do PT não demorou a acontecer. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), que por muitos anos foi exemplo de luta e independência dos trabalhadores, transformou-se em guarda particular do presidente e foi quem assumiu a missão de se contrapor ao “Cansei”. Para tanto, lançaram o “Cansamos”, que, sem dúvida, soa melhor devido ao companheirismo sugerido pelo verbo no plural, mas que não vai além do marketing.

Aliás, a qualidade da propaganda petista tem evoluído à medida que a identidade política do partido se perde; já a direita, que parece não aprender, peca também pelo individualismo do nome-fantasia de sua articulação. As bandeiras do “Cansamos”, é verdade também, possuem um rótulo mais humanitário. Evocam, por exemplo, o “cansaço” em relação aos trabalhos escravo e infantil. Mas, contra isso, palavras não bastam e o governo Lula já mostrou de que lado da trincheira está ao dar aos usineiros – que em grande parte praticam o chamado “trabalho análogo à escravidão” – o status de “heróis”. O pior cego é aquele que não quer ver e, contra fatos, não há argumentos.

Para romper essa falsa polarização que tem ocorrido desde as últimas eleições é que surgiu a idéia de um movimento independente, o “Enchi o saco”. Não há eufemismo que atenue as injustiças que envolvem o Brasil. A intenção é mostrar que estamos cansados, sim, e faz tempo. Um de nossos objetivos é desmascarar o debate vazio que tomou conta da pauta de discussões na sociedade. Este é um chamado para que aqueles que, há anos, resistem bravamente não sejam ludibriados por nenhum dos lados desse debate inócuo.

Enchemos o saco da corrupção do governo Lula assim como já estávamos cheios da improbidade tucana. Enchemos o saco da política neoliberal – iniciada por Collor, aprofundada por FHC e continuada por Lula – que há anos tenta diminuir o papel social de um Estado que deveria controlar efetivamente o setor aéreo, sem deixar que empresas privadas arrisquem vidas a fim de garantir lucros cada vez maiores. Enchemos o saco da elite e da classe média aspirante à elite, que ignoram a miséria que está presente em grande parte da população.

Estamos cansados, é verdade, mas não a ponto de deixar de ocupar universidades, realizar greves e paralisações, ir às ruas em passeatas ou manifestações por um mundo mais justo. Continuar na luta em CAs, DCEs, partidos políticos e sindicatos combativos, entre outros movimentos sociais, é o que é preciso ser feito. O resto é conversa mole.

Este texto foi publicado originalmente no Correio da Cidadania, em 29 de agosto de 2007. Disponível em: