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sábado, 22 de outubro de 2011

Lições de Hogwarts aos estudantes da Universidade de São Paulo


“O mundo não se divide entre pessoas boas e Comensais da Morte”, disse a Harry Potter seu padrinho Sirius Black no quinto filme da série – palavras arrancadas, salvo engano da memória, da boca do professor Remus Lupin no terceiro livro.

Antes que este texto suscite algum tipo de expectativa inapropriada, vale a advertência de que não há aqui pretensão alguma de crítica de cinema nem tampouco de crítica literária sistematizada e aprofundada ou de estudo sociológico metodologicamente rigoroso. O que se pretende é apenas compartilhar considerações soltas acerca da série de livros “Harry Potter” bem como sugerir alguma relação entre os movimentos estudantis bruxo e trouxa. Tudo isso faz parte de um esforço paralelo maior de interpretação e compreensão da obra que, infelizmente, não é possível reproduzir nestas escassas linhas.

“Harry Potter” não é uma narrativa arranjada segundo qualquer tipo de maniqueísmo pueril. Ela é em certo sentido complexa – e, quando digo “complexa”, tenho em mente instrumentos apropriados, nem sempre da maneira mais ortodoxa, da obra do brilhante crítico Antonio Candido. Para ele, a “formação do homem” é função da literatura, não no sentido de “pedagogia oficial”, mas como algo que “age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela – com altos e baixos, luzes e sombras”, o que “humaniza em sentido profundo, porque faz viver”. Para desempenhar tal função, alguma complexidade é requisito, e acho que neste ponto a autora J.K. Rowling foi de alguma forma bem-sucedida. A leitura de “Harry Potter” a seu modo educa.

A compreensão que sugiro da narrativa é enquanto arranjo dialético tecido a partir das sucessivas contraposições entre as visões de mundo conservadora e progressista (polarização direita X esquerda, se preferirmos), que culminam ciclicamente em duelos entre Harry Potter e Lord Voldemort. Teríamos então, de um lado, uma visão de mundo democrática e igualitária, aberta ao aprimoramento do ser humano e suas relações por meio da razão e da reflexão crítica. E, de outro, uma assustadora visão em torno de valores de disciplina cega e superioridade bruxa em relação às outras criaturas mágicas (outras civilizações) e aos chamados trouxas (idem), bem como à miscigenação envolvendo os primeiros e qualquer um dos dois últimos “outros”.

É a partir do volume “Harry Potter e a Ordem da Fênix” que passamos a notar um maior amadurecimento político na série. Avançando para a questão mais propriamente estudantil, podemos arriscar aqui algumas curiosas analogias com relação à nossa USP: Armada de Dumbledore como reação à intervenção ministerial em Hogwarts (ocupação da Reitoria em 2007 como resposta à violação da autonomia da USP), nomeação de Dolores Umbridge como “alta inquisidora” de Hogwarts e sua missão de conservar o saber teórico descolado da realidade prática (nomeação de João Grandino Rodas como reitor e sua visão igualmente conservadora), brigadas inquisitoriais (“policiais-estudantes” recentemente anunciados como medida de segurança pela reitoria), rejeição à presença de dementadores em Hogwarts (polêmica em relação à entrada da PM na USP) etc.

A instituição máxima responsável por produção e divulgação do “saber” numa sociedade, bruxa ou trouxa, tem grandes responsabilidades como reduto de pensamento crítico (e a passagem do último livro em que Hogwarts se defende das forças das trevas é de arrepiar nesse sentido). Acontece que o nosso mundo também não se divide entre pessoas boas e a direita, por assim dizer, e idealizar o contrário não é senão sinal de imaturidade. Resgatando desta vez o Candido militante: o socialismo para ele, por exemplo, não é forma de pensar, mas sobretudo uma questão ética, de conduta. Ou seja, seriam as escolhas que fazemos (não na retórica mas frente aos dilemas concretos com os quais nos deparamos no dia a dia da vida em sociedade) que demonstram quem de fato somos e de que lado verdadeiramente estamos.

“Se eu fosse Você-Sabe-Quem, seria assim que eu gostaria que você se sentisse, sozinho, pois desse modo não seria uma ameaça”, disse a Harry Potter sua encantadora colega Luna Lovegood. Quando Lord Voldemort reuniu seguidores e se infiltrou no Ministério da Magia, foi apenas por meio da organização coletiva, a despeito de suas eventuais imperfeições, que Harry e seus companheiros conseguiram resistir, e não de acordo com o individualismo largamente professado em nosso mundo pretensamente “pós-ideológico”.

Sendo assim, podemos dizer que a militância de esquerda no movimento estudantil, apesar dos inevitáveis desapontamentos que nos traz em relação a pessoas e situações, vale a pena. Por um lado, porque nos torna mais fortes na luta para fazer valer nossos ideais (para ter êxito, no entanto, toda forma de dogmatismo e sectarismo precisa ser afastada, haja vista o exemplo da Armada de Dumbledore e mesmo o da Ordem da Fênix). Por outro, porque essa experiência na universidade, com suas luzes e trevas, ao menos nos prepara (como a boa literatura) para a dura vida fora dela.


(Texto originalmente publicado na terceira edição do jornal O KULA, p. 18.)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Antes tarde do que nunca...

O livro "Matinta, o bruxo", de Paulo César Pinheiro (sobre o qual escrevi aqui em 29/5), finalmente começa a receber por parte da imprensa a atenção que merece. Apesar de ter sido lançada oficialmente em maio, foi apenas agora, na edição do mês de agosto, que a obra recebeu atenção do "Guia Folha -- Livros, Discos, Filmes". Valeu a espera, no entanto: "Matinta, o bruxo" foi destaque da seção de ficção brasileira e levou como avaliação um justíssimo "ótimo" de Jurandir Renovato, editor da "Revista USP", como vocês podem conferir abaixo.


sexta-feira, 8 de julho de 2011

A propósito do mês de junho


Junho, mês dos namorados, poderiam dizer alguns, entusiasmados. E é exatamente esta a razão do post.

No mês passado, aconteceu no espaço estudantil de Ciências Sociais e Filosofia da USP o primeiro Sarau Mensal dos estudantes, aberto a todo tipo de manifestação artística, própria ou alheia.

Eu fui e, a propósito do recém-passado Dia dos Namorados, declamei um poema de Manuel Bandeira. Uma "homenagem", assim mesmo, com aspas -- tantas quantas forem possíveis.




Arte de amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma,
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


(Belo Belo, 1948. O poema acima foi extraído de Testamento de Pasárgada, organizado por Ivan Junqueira. A imagem ao lado, retrato a óleo pintado por Candido Portinari, ilustra a capa da antologia.)

domingo, 29 de maio de 2011

Chega às livrarias "Matinta, o bruxo"

Por ter me envolvido a fundo no recente processo de edição desta bela obra, acredito ser eu bastante suspeito para elogiá-la, o que faz com que me limite aqui a reproduzir, a modo de registro da publicação, o texto que escrevi faz um tempo para a assim chamada "quarta capa" do livro. E o julgamento fica por conta de cada um.

***

Matinta, o bruxo, segundo romance do compositor e poeta Paulo César Pinheiro, é fruto do acasalamento de duas das mais belas canções da música popular brasileira, “Matita-perê”, em parceria com Tom Jobim, e “Sagarana”, com João de Aquino.

A narrativa, do hibridismo do enredo das letras, nos leva a cruzar o batente de veredas abertas por João Guimarães Rosa, de quem Paulo César Pinheiro leu a obra ainda menino e o qual viria a se tornar uma referência notável em seu estilo, fartamente temperado com neologismos e bastante sensível ao falar popular.

Por meio do turismo forçado de João, a personagem que nestas páginas nos arrasta junto de si em sua fuga, Paulo César Pinheiro pinta um quadro intenso e expressivo, tanto da paisagem natural como da realidade social a envolver a rusticidade da vida do sertanejo.

Se muitas vezes não há quem olhe por eles, aqui há Matinta, o pássaro bruxo cujo canto místico oferece amparo e orientação até o fim.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A imortalidade do bom poeta

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho (1886-1968), o nosso Manuel Bandeira, teria feito 125 anos ontem, 19 de abril, caso estivesse vivo. Mas quem foi que disse que não está? Admitindo-se a imortalidade que a boa poesia pode proporcionar a seu autor, não há porque não celebrar o aniversário de Bandeira, até porque corre-se sempre o risco de que mais cento e tantos anos se passem sem que se verse com semelhante intensidade e contundência. Abaixo transcrevo (do "Testamento de Pasárgada", organizado por Ivan Junqueira) o meu poema favorito, aquele que eu invejo, aquele que eu gostaria de ter escrito, entre todos os existentes, caso fosse possível tal escolha.


Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

-- Eu faço versos como quem morre.

(Teresópolis, 1912, "As cinzas das horas")

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Paulo César Pinheiro, o bruxo

Paulo César Pinheiro é homem bom com as palavras, artista de dar gosto. Compositor, poeta e boêmio, ele agora também pode ser chamado, com todas as letras, de romancista. E dos bons. Depois de "Pontal do Pilar", ótimo romance de estreia publicado em fins de 2009, chega agora em 2011 às livrarias "Matinta, o bruxo", em cujo processo editorial eu orgulhosamente estou trabalhando. Por conta disso, acabei conhecendo as duas músicas que, cruzadas, dão as bases para o enredo da história, "Sagarana" e "Matita-Perê". Preciosas. Abaixo reproduzo uma versão bonitinha de "Sagarana" que encontrei no Youtube. Lá tem também com a Clara Nunes, para quem preferir. Deliciem-se. Porque, muito sinceramente, essa música é a coisa mais linda.


Mea-culpa necessário

Lá no sítio do Pica-Pau Amarelo dizem que a coisa era assim: a Narizinho tinha o narizinho fino. O personagem mais inteligente, Visconde de Sabugosa, era ruivo como em terras arianas e distantes além-mar. E a serviçal agregada da casa, Tia Nastácia, era uma senhora negra.

Poderíamos inferir com isso, e talvez até com alguma razão, que Monteiro Lobato tinha um pé no racismo. Recentemente, por exemplo, a obra “Caçadas de Pedrinho” foi acusada, pelo Conselho Nacional de Educação, de conter trechos racistas.

Debate semelhante ocorre nos EUA, onde o livro “Hucleberry Finn”, de Mark Twain, vem há anos sofrendo o mesmo tipo de acusação. A saída encontrada pela editora NewSouth Books, que lançará nova edição da obra em breve, no entanto, é assustadoramente perigosa: a versão vai trazer as expressões tidas como problemáticas deliberadamente adulteradas, com a intenção de adequar o livro ao “politicamente correto”.

Essa “sanitarização”, como denomeou Ivan Finotti em matéria recente na “Folha de S.Paulo”, traz uma série de questões em seu bojo e expõe a fragilidade da história na mão de quem a conta. Em outras palavras, carimba o certificado de validade da tese de que não existem verdades absolutas em termos de historiografia.

E tudo isso traz à tona também o compreensível descompasso entre obras literárias antigas e o corrente “politicamente correto”. É uma enorme estupidez lidar com autores antigos cobrando deles a mentalidade que temos nós, muitos anos depois. Por mais visionários que fossem, temos de lembrar que estavam presos a seu tempo, por assim dizer, à estrutura social até então produzida e por todos compartilhada, com as suas devidas nuanças. A literatura expressa temas com significação universal que transcendem o tempo, é verdade, mas o faz à luz da sociedade da época em que é produzida.

E, vejam, digo tudo isso sem absolutamente duvidar da boa-fé de muitos que estão por trás dessas iniciativas. E aqui conto o porquê, justificando o título desta postagem.

Trabalho em editoras de livros há aproximadamente quatro anos e já deparei com uma situação parecida. E cometi um crime, que à época assim não considerava e pelo qual agora me resta, com este texto, tentar alguma redenção. Foi em um trabalho como preparador de textos, à época para a editora Planeta. O livro era um romance estrangeiro de autoajuda fraquinho e trazia uma passagem completamente periférica que me tirou o sono enquanto adolescente militante de esquerda. Não tive dúvidas, substituí “terrorista” por “guerrilheiro” e “maldade” por “violência” – se não me engano. Grande erro.

É preciso ter em mente o que significa esse tipo de interferência. Muito mais proveitoso do que vetar uma obra literária ou adulterá-la seria termos edições bem-trabalhadas, com notas de rodapé que situem a obra em seu contexto. E também termos professores bem-preparados em salas de aula para trabalhar o conteúdo suscitado por tais leituras. No caso de autores vivos, como era o caso do meu trabalho, o adequado é tentar dissuadi-los do emprego de certas palavras e vieses. Caso isso não funcione, fazer o quê, os autores assinam e respondem por suas obras, podendo ser julgados pela crítica, pelo público e pela história. À editora e aos profissionais envolvidos no processo editorial, cabe a decisão da publicação e os procedimentos para concretizá-la.

Interferências desse tipo demonstram imaturidade e são extremamente perigosas, uma vez que agem no sentido de deliberadamente alterar o passado, mudar a história, algo até orwelliano, se formos parar para pensar no trabalho do pobre Winston Smith no Ministério da Verdade, no livro “1984”. Com isso, perde-se a exata noção do processo de desenvolvimento histórico e de construção social da moral vigente. Perde-se o exato significado das transformações sociais e dos desafios dos que lutaram para empreendê-las.

Um autor que comete equívocos, ou é preconceituoso, ou reproduz senso-comum etc., deve sim ser alertado antes e depois da publicação por editores, amigos, revisores ou quem quer que seja que possa fazê-lo. Uma vez publicada, no entanto, a obra materializa-se enquanto expressão artística portadora de elementos de seu autor e sua época. Mudanças podem ser feitas a posteriori, sem dúvidas, mas por iniciativa (ou ao menos com o consentimento) do autor e a consciência por parte deste de que, por mais que queira dar nova forma ao seu produto artístico, a forma antiga já não pertence apenas a ele, mas também à história.

sábado, 18 de dezembro de 2010

De Dostoiévski para vocês

Ceticismos à parte, um conto extraordinário de Fiódor Dostoiévski. Para ler e refletir neste fim de ano.


A árvore de Natal na casa de Cristo

"Havia num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado num canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de vê-lo se evolar. Mas bem que gostaria de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, com um saco sob a cabeça à guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa. No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que outrora tinha sido babá e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha para comer, e mais de dez vezes tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalpado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. 'Faz muito frio aqui', refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para esquentá-los, pegou o seu gorrinho abandonado no leito e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por sua vontade, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, nas soleiras das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava alí, e o menino já ganhava a rua.

Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido, De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por trás dos postigos; desde o cair da noite, não se encontra mais ninguém fora, toda a gente permanece bem enfunada em casa, e só os cães, às centenas e aos milhares, uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer… ao passo que ali… Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra ali, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens… e o frio, ah! este frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada; toda a gente se apressa e se acotovela, e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de policia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não vê.

Eis uma rua ainda: como é larga! Esmaga-lo-ão ali, seguramente; como todo mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Ah! uma grande vidraça, e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem alguma coisa. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha, surpresa; logo sorri, enquanto os dedos dos seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem se dobrar nem mesmo se mover. De repente o menino se lembrou de que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe, e eis que, através de uma vidraça, avista ainda um quarto, e neste outra árvore, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidades, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos os que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. Na ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente uma moeda na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas a moeda rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-la. O menino apertou o passo para ir mais longe – nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas desta vez tem medo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando, de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, através da vidraça, há três grandes bonecos vestidos com roupas vermelhas e verdes e que parecem vivos! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão em pé junto dele e tocam violinos menores, e todos maneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; falam, devem falar – de verdade – e, se não se ouve nada, é por causa da vidraça. O menino julgou, a princípio, que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecos, pôs-se de súbito a rir. Nunca tinha visto bonecos assim, nem mesmo suspeitava que existissem! Certamente, desejaria chorar, mas era tão cômico, tão engraçado ver esses bonecos! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado dele, deu-lhe de repente um tapa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha. 'Aqui, pelo menos', refletiu ele, 'não me acharão: está muito escuro.'

Sentou-se e encolheu-se, sem poder retomar fôlego, de tanto medo, e bruscamente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e os pés tinham deixado de doer, e sentia calor, muito calor, como ao pé de uma estufa. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! 'mais um instante e irei ver outra vez os bonecos', pensou o menino, que sorriu à sua lembrança: 'Podia jurar que eram vivos!'… E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. 'Mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!'

– Venha comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino – murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.

Ele ainda pensava que era a mãe, mas não, não era ela. Quem então acabava de chamá-lo? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro, estende-lhe os braços e… logo… Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda parte, bonecos – mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mãe e lhe sorri com ar feliz.

– Mamãe! mamãe! Como é bom aqui, mamãe! – exclama a criança. De novo abraça seus companheiros, e gostaria de lhes contar bem depressa a história dos bonecos da vidraça… – Quem são vocês então, meninos? E vocês, meninas, quem são? – pergunta ele, sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.

– Isto… é a árvore de Natal de Cristo – respondem-lhe. – Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra…

E soube assim que todos aqueles meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelados nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido junto às amas, em algum dispensário finlandês; uns sobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome de Samara; outros, ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão ali nesse momento, todos são agora como anjos, todos juntos a Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para abençoá-las e às pobres mães… E as mães dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem mais, que eles estão muito bem ali…

E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe… Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus."


(Via http://ferrez.blogspot.com, com ajustes. Caso alguém verifique imprecisão na versão, ou reivindique os créditos da tradução, peço que entre em contato.)

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Sexto Prêmio Bravo! de Cultura

Quem gosta do Manoel de Barros levanta a mão. Ou, melhor, quem gosta do poeta acesse o link do prêmio e vote. O Manoel merece -- e agradece.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Preciso ler Guimarães Rosa


Na edição especial de número 600 da revista CartaCapital, várias personalidades foram convidadas a responder à seguinte pergunta: "Do que o Brasil precisa?".

As respostas foram as mais variadas, de acordo com a área de atuação e a visão de mundo da pessoa em questão. Entre um Stedile aqui, um Belluzo ali e um Sócrates acolá, surpreendido mesmo eu fui com o texto de Jorge Futado, cineasta e roteirista.

O texto de Furtado carrega o seguinte título: "Ler Guimarães Rosa (e outras dez sugestões para fazer deste um país melhor para nós e os nossos filhos)". Instigante. E mais instigante ainda é o trecho citado do livro Grande Sertão: Veredas, do qual reproduzo uma parte abaixo.

"Por que o governo não cuida? Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil e tantas misérias... Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons...”

Política de verdade é assim. Não basta ideias arranjadas, infelizmente (ou felizmente, sei lá). O buraco é bem mais embaixo. E Guimarães Rosa, pelo visto, ajuda a iluminar tão tortuosa trilha. Preciso lê-lo urgentemente.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O balanço do mergulho no universo de "Gonzos e parafusos"

As considerações de quem acompanhou de perto a performance e a edição de “Gonzos e parafusos"

(do blog http://www.leya.com.br/gonzoseparafusos)


Já faz quase 15 dias que o livro Gonzos e parafusos foi lançado. Durante os 7 dias e 6 noites da performance que antecedeu o lançamento da obra eu vivi intensamente o universo criado por Paula Parisot, ao fazer a cobertura para o blog oficial. Digamos que, como a protagonista Isabela (e também como Paula), eu me internei “espontaneamente” em uma “clínica de repouso”, no meu caso os corredores da Livraria da Vila.

Internei-me, na verdade, por uma obrigação visceral. Eu simplesmente sentia que precisava estar lá. Não creio, é necessário pontuar, que há coisas neste mundo para as quais não existam explicações. Tudo tem um encadeamento lógico, conquanto às vezes possamos ignorá-lo. O importante é questionar-se e mover-se sempre no sentido de buscar desvendar aquilo que aparentemente não tem explicação. E lá fui eu.

Pois bem, a performance acabou e, como não poderia deixar de ser, tomou-me de assalto um certo vazio. Este texto “final”, com o qual eu pretendia encerrar a minha participação no blog, foi sendo deixado por mim para depois, de certa maneira eu estava tentando fugir da dor da perda. Freud explicaria, sem dúvida. Mas agora chegou a hora de encarar o desafio. Vamos lá.

O convite irrecusável

Quando Gonzos e parafusos foi editado, eu era ainda funcionário da Leya, prestava assistência ao Pascoal Soto e à Tainã Bispo, diretor editorial e editora de títulos nacionais, respectivamente. Embora Pascoal falasse muito bem do livro, só fui ter mesmo ideia do que se tratava quando o manuscrito veio parar em minhas mãos (ou em minha tela, mais adequado). Dei prosseguimento ao processo editorial. A primeira leitura que fiz foi perturbadora, percebi ali estar diante de algo bastante especial.

Desde então, mal conhecendo Paula, havia me imposto duas tarefas: dedicar algumas linhas de reflexão sobre a obra ao fim do processo e, de alguma maneira, acompanhar a performance e até escrever sobre ela também. Eu deixei a Leya cerca de um mês antes do lançamento da obra, com a edição já finalizada, a fim de me dedicar a outros projetos pessoais. Eu nem sequer poderia imaginar o que o destino estava preparando para mim.

O convite para cuidar do blog foi feito por Gabriel Martins, responsável pelo marketing da editora, e me pegou desprevenido. Me enchi ao mesmo tempo de ansiedade e receio. Afinal, eu sabia que aquilo não teria controle, que seria antes um exercício de autoconhecimento do que um trabalho burocrático. Seria a minha busca por respostas, algo completamente imprevisível. De qualquer modo, era a chance de eu me envolver ainda mais com aquele universo e cumprir com as duas tarefas autoimpostas anteriormente. Aceitei.

Chega o início da performance

Um dos primeiros desafios do início da cobertura foi encarar aquele mulher postada no interior do quarto de acrilico, com a qual eu passaria ao menos metade de todos aqueles dias. Impressionante, a sensação, como disse um espectador, era mais a de a Paula estar nos invadindo, e invadindo a nossa privacidade, do que o contrário, o que seria o óbvio, o previsível. Passei o primeiro dia sem conseguir sustentar nem por um segundo sequer o olhar de Paula Parisot. E isso me atordoou.

No segundo dia de performance, acordei com a missão de encará-la até conseguir sustentar seu olhar. E assim foi, depois de muitas tentativas frustradas na manhã da sexta-feira. Descobri-me covarde diante dela. Percebi que me escondia, inseguro, dentro de mim, e que buscava ali dentro refúgio contra o cruel mundo exterior. Não tinha coragem para me debruçar sobre a janela da alma alheia, porque isso implicaria abrir uma fresta para que vislumbrassem também o que há de mais íntimo em mim. “Quando você olha para dentro do abismo, o abismo também olha para dentro de você”, poderíamos, indevidamente até, roubar a Nietzsche, pensador adorado por Isabela.

O fato é que era preciso ser forte. Era preciso descobrir alguém como Paula. Era preciso (e continua sendo) descobrir a mim mesmo cada dia mais. Fixamos, enfim, o olhar um no do outro. E o feito rendeu a inscrição na parede do quartinho de acrílico: “O jovem alto e esguio pela primeira vez olhou para mim, já não se assusta”.

A literatura de verdade, segundo meu mestre

Poderiam dizer os pretensamente perspicazes: “a performance não passou de uma bela estratégia de marketing”. Coitados. O blog pode até ser considerado uma ferramenta de divulgação da performance, portanto sujeito a esse tipo de acusação, mas a perforance, não. E, garanto, eu jamais me envolveria num projeto cujo propósito fosse o simples apelo comercial. Minha consciência marxista jamais me deixaria dormir tranquilo novamente.
Para tentar dizer o que me motivou a abraçar essa ideia tão heterodoxa, tenho de lançar mão das sábias palavras do meu mestre. Sim, porque cada um nesta vida tem um mestre. O de Paula é Rubem Fonseca, que dispensa comentários. O meu responde pela direção editorial do grupo Leya no Brasil e atende pelo nome de Pascoal Soto.

O que Pascoal me disse em variados momentos de nossa convivência, e reiterou dias antes do início da performance, foi que a literatura de verdade é aquela movida pela inquietação, aquela que busca respostas. É a literatura que, para além da mão e da cabeça, poderíamos dizer, utiliza fígado, vísceras e coração. E a literatura de Paula Parisot seria uma literatura dessa qualidade.
Literatura não tem de dar respostas, concordo, porque cada um tem de buscar as suas próprias, que são evidentemente diferentes das dos outros, o que nos impede de ganhar respostas prontas de presente em um livro, por exemplo. O sentimento de inadequação a este mundo, e o consequente sofrimento advindo dele, formam aquilo que particularmente considero o melhor combustível para uma literatura de verdade.

A história de Gonzos e parafusos carrega uma grande carga autobiográfica. Paula, ficou ainda mais claro durante os dias de confinamento, viveu grande parte do que está narrado em seu romance, ainda que não exatamente daquele modo, e a própria performance tinha uma importância de libertação pessoal para ela. Desconsiderar isso ou atribuir qualquer tipo de viés meramente narcisista é tornar a obra menor do que de fato ela é, porque talvez seja mesmo Paula uma narcisista (e provavelmente não seja a única nem seja só isso). Aquela é a história de uma personagem que fica “parafusando”, ou seja, refletindo, que se sente “fora dos engonços”. Está, portanto, longe de ser uma parábola a trazer ao seu final qualquer tipo de “moral da história” ou coisa do tipo. Leituras assim, a meu ver preconceituosas, são rasas e atravessadas. E não fazem sentido algum.

Dividindo o peso da cruz

Como diz a personagem Isabela a certa altura da história, é muito reconfortante descobrir, por meio dos livros, que não carregamos sozinhos nas costas todo o sofrimento do mundo. Foi justamente por compartilharmos esta cruz que eu e tantos outros tenhamos sido arrebatados. E talvez por isso o meu trabalho no blog tenha saído mesmo tão autoral, como sugeriu o querido Pipol, responsável pela gravação dos vídeos diários da performance. É verdade, ficou mesmo muito além da margem de segurança que eu pretendia manter.

Durante os dias da performance, muitas pessoas passaram por lá e (por que não aproveitar a metáfora pascal?) ajudaram-na com o peso da cruz. Não obstante, porém, houve quem a açoitasse. Com palavras, é claro, mas de forma não por isso indolor. É a ignorância que pare o ódio, creio eu, porque o respeito é coisa para quem está deveras seguro de suas convicções (e da inevitável insuficiência delas).

Durante toda a cobertura para o blog, esforcei-me para fazer jus ao espírito e à grandeza de Gonzos e parafusos. Em cada linha, deixei um pouco do sopro de vida que me anima, porque não seria justo nem possível sair incólume. Deixar um pouco de vida em cada linha escrita talvez seja uma válvula de escape, mas sem dúvida nos ajuda a levar adiante o que sobra da vida em nós. O agora não cessa nunca o seu vir a ser. E é preciso seguir em frente.