Mostrando postagens com marcador Resenhas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Resenhas. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Meia-noite em Paris (ou a qualquer hora em qualquer lugar)

É claro que quando vamos ao cinema para assistir a um filme de Woody Allen não esperamos outra coisa a não ser um trabalho bem feito -- e isso ainda que você, assim como eu, não entenda lá muito da nossa querida sétima arte.

A propósito, é menos sobre a sétima arte, e mais sobre a sexta delas, a literatura, que pretendo discorrer um pouco neste texto. Num filme em que figuras como Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway e Gertrude Stein aparecem, tal intuito me parece, aliás, bastante compreensível.

O protagonista do longa, Gil Pendler, é um estadunidense que, cansado de se prostituir como roteirista de Hollywood, decide escrever um romance e tentar, dessa maneira, tornar-se escritor. Ele também está em vias de se casar com a bela Inez, com cuja família viaja, em férias, a Paris.

Às voltas com passos decisivos a dar em áreas importantes da vida, como amor e trabalho, Gil deixa-se levar um pouco pelo encanto da Cidade Luz. E isso muda tudo. Sem querer, ele descobre uma "caravana" que passa todos os dias à meia-noite para buscá-lo e levá-lo para a sua "Golden Age" (recorte de tempo e espaço da história da humanidade que idealizamos e no qual gostaríamos de viver -- no caso de Gil, a capital francesa dos anos 1920).

Dividamos agora aqui as considerações em dois momentos: a relação de um escritor com a literatura ocidental e seus cânones e a relação de um leitor qualquer com suas obras preferidas de tal literatura.

A começar pelo primeiro ponto, é necessário reconhecer o que é sem dúvidas uma louvável homenagem ao pensamento de alguém que no filme aparece apenas de passagem, abrindo numa das vezes a porta da "caravana" para Gil: Thomas Stearns Eliot, o T.S. Eliot, poeta e crítico literário britânico nascido nos EUA.

Para Eliot, os escritores vivos e mortos não se encontram propriamente separados numa linha sucessória hierarquizada, mas numa relação de quase "contemporaneidade". Em seu célebre ensaio "Tradição e o talento individual", ele chega mesmo a afirmar que "o passado deve ser alterado pelo presente tanto quanto o presente é dirigido pelo passado", o que é, em alguma medida, o que Woody Allen nos proporciona com sua admirável metáfora.

Quando discute com sua noiva após dias de visitas à "Golden Age", Gil profere palavras das quais Eliot certamente se orgulharia. Gil teria demonstrado possuir o que Eliot chamou de "senso histórico", indispensável a um bom escritor: a "percepção não apenas da qualidade de passado do passado, mas de sua presença". Ou, dito de outra forma, a um escritor é preciso viver "não no que é meramente o presente, mas o momento presente do passado" e estar "consciente não do que está morto [em relação ao passado] mas do que permanece vivo". Nisso o nosso candidato estadunidense a escritor pareceu se sair bem, e não deixa de ser curiosa a situação fantasiosa da entrega de seus manuscritos para leitura e parecer crítico de personalidades do passado, as quais, no entanto, permanecem vivas no universo da literatura e com as quais certamente temos muito a aprender -- ao menos na visão eliotiana.

Avançando agora para o segundo ponto: tudo o que foi dito acima está relacionado ao que Eliot pensava para um escritor. Mas não seria descabido trazer também essa noção de quase "contemporaneidade" para aqueles que são apenas leitores, e não necessariamente escritores. Afinal, é função da literatura educar o homem ao proporcionar a ele um amplo arco de experiências de vida não diretamente vivenciadas.

No caso do filme, Gil convive com críticos, escritores, pintores e demais figuras de relevo que habitaram sua "Golden Age", as quais lhe dão importantes ensinamentos em relação não apenas ao ato de escrever propriamente mas sobretudo no que diz respeito às inquietações mais amplas da vida e à forma de lidar com elas. Assim como sua noiva sai para dançar e se relacionar com alguém com quem julga estar aprendendo alguma coisa, Gil opta por encontros com grandes clássicos da literatura... Ele fazia isso à meia-noite em Paris. Nós, como qualquer um, podemos fazer isso a qualquer hora em qualquer lugar do mundo. Assim é a viagem literária.

"Meia-noite em Paris" pode até ser visto como uma declaração de amor à realmente bela capital francesa. Mas, se eu não estiver muito enganado, ele é também uma declaração de amor, tanto quanto ou até maior, à literatura.

domingo, 29 de maio de 2011

Chega às livrarias "Matinta, o bruxo"

Por ter me envolvido a fundo no recente processo de edição desta bela obra, acredito ser eu bastante suspeito para elogiá-la, o que faz com que me limite aqui a reproduzir, a modo de registro da publicação, o texto que escrevi faz um tempo para a assim chamada "quarta capa" do livro. E o julgamento fica por conta de cada um.

***

Matinta, o bruxo, segundo romance do compositor e poeta Paulo César Pinheiro, é fruto do acasalamento de duas das mais belas canções da música popular brasileira, “Matita-perê”, em parceria com Tom Jobim, e “Sagarana”, com João de Aquino.

A narrativa, do hibridismo do enredo das letras, nos leva a cruzar o batente de veredas abertas por João Guimarães Rosa, de quem Paulo César Pinheiro leu a obra ainda menino e o qual viria a se tornar uma referência notável em seu estilo, fartamente temperado com neologismos e bastante sensível ao falar popular.

Por meio do turismo forçado de João, a personagem que nestas páginas nos arrasta junto de si em sua fuga, Paulo César Pinheiro pinta um quadro intenso e expressivo, tanto da paisagem natural como da realidade social a envolver a rusticidade da vida do sertanejo.

Se muitas vezes não há quem olhe por eles, aqui há Matinta, o pássaro bruxo cujo canto místico oferece amparo e orientação até o fim.

domingo, 24 de abril de 2011

A cópia fiel da humanidade

Não tenho por objetivo me alongar aqui a respeito do filme "Cópia fiel", até porque costumo ser sempre bastante honesto declarando logo de cara que entendo bulhufas da (não por isso menos querida) sétima arte. A opinião abaixo, portanto, não obedece a nenhum rigor mais "técnico", digamos assim, ainda que possa ser considerada "crítica" (uma vez que a relação sociedade/cultura/arte tem recebido ultimamente grande parte da atenção dos meus estudos).

Eu poderia simplesmente dizer que "Cópia fiel" é a cópia fiel da vida de todos nós, seres necessitados que somos de fantasia, de fuga da realidade, de experimentação, de aquisição de experiências vitais sem ter necessariamente de vivê-las de modo concreto. O filme tende a causar certo incômodo, é verdade, talvez justamente por nos deixar um pouco nus, ao retirar o véu que muitas vezes deixamos cair sobre necessidades e anseios que buscamos esconder dos constrangimentos impostos pela vida em sociedade.

Afinal, quando deixamos de ser crianças, deixamos também de nos permitir certos exercícios de livre imaginação, que seriam plenamente aceitáveis antes, mas que não estão de acordo com o padrão esperado de adultos bem-resolvidos. Como refúgio a tal limitação, existem as artes, como o cinema e a literatura, nas quais porém somos geralmente influenciados a esperar personagens e situações que, embora frutos da imaginação de alguém, sigam um padrão socialmente aceitável e simplesmente satisfaçam essa nossa necessidade por realidades paralelas, e não que a representem, como faz o filme em questão.

Seja como for, o que eu queria mesmo dizer é que um gesto de ousadia faz toda a diferença.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O inevitável xeque-mate

O quase despejado Cine Belas Artes promoveu, no mês passado, uma maratona com exibição especial de “clássicos” e “cults”, da qual eu infelizmente não pude desfrutar integralmente.

Mas, entre outros, assisti a “O Sétimo Selo”, do aclamado e recentemente falecido cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), depois de muito ouvir falar dele e desse seu filme, no qual acontece a clássica partida de xadrez entre o protagonista e a Morte, coadjuvante implacável na história de todos que vêm a este mundo.


O filme eu veria de novo (em verdade, verei) várias vezes. Antes disso, escrever sobre ele seria imprudente. Mas, tendo em vista que não jogo xadrez nada bem, ao menos não tão bem a ponto de postergar o xeque-mate da Morte por um tempo razoavelmente longo, também não me é recomendável guardar minhas impressões para a próxima rodada, que na realidade pode nem acontecer.

Admirável metáfora da vida, que poderia então ser entendida como o tempo que ganhamos ao desafiar a morte neste jogo que é viver. Por melhores jogadores que sejamos, dela ninguém escapa. A vida é o intervalo que existe entre o início da partida e o inevitável xeque-mate da Morte.


PS: Como já registrei no Twitter à época, se o Cine Belas Artes não fosse fechar eu sugeriria a substituição do redator de sinopses das programações, porque a referente à maratona acima citada continha conflitos gritantes com relação ao enredo dos filmes. No caso de “O Sétimo Selo”, invertia o desafio, atribuindo-o à Morte, e não ao cavaleiro, como parece evidente a qualquer um que porventura assista ao filme.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O que vi da 34ª Mostra de Cinema de SP (e o que ficou)

A 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo trouxe, como era de se esperar, ótimos (e raros) filmes ao circuito paulistano, só que por um curto período de tempo. Eu, pela correria e desorganização de sempre, quase não assisti a nenhum. Mas acabei vendo um. Uma experiência, digamos, bastante heterodoxa.

Eu cheguei ao cinema sem saber o que viria pela frente (aceitar convites de última hora dá nisso). Esperava, como os amigos que me acompanhavam, um filme que tratasse diretamente da Revolução Mexicana, com direito a Pancho Villa e Emiliano Zapata no roteiro. Não era nada disso.

O filme "Revolución" é uma série de 10 curtas-metragens feitos por 10 grandes cineastas mexicanos (até aí, estava escrito na sinopse), que teriam buscado, por ocasião do centenário da Revolução Mexicana (desencadeada em 1910), algo como um "compêndio de visões do México atual, com o objetivo de encontrar um eco daquele essencial momento da história do país [a tal da Revolução Mexicana]". Estas últimas informações eu viria a tomar conhecimento apenas no decorrer dos 100 minutos de filme.

"Revolución" é, de fato, um filme antropologicamente bastante rico. Traz à tona questões universais, sim, mas quando o faz é por meio de idiossincrasias, de especificidades locais. Não tenho por objetivo aqui falar longamente do conjunto nem de cada curta (até porque entendo muito pouco dessa tal de "sétima arte"). Gostaria, isso sim, de compartilhar a pertinência de um dos filmetes, do qual sequer me recordo o nome, para a decisão de um eleitor às vésperas do segundo turno da eleição presidencial brasileira.

No curta em questão, existia uma atendente de supermercado que não possuía os dois dentes da frente e usava uma espécie de dentadura. Isso a impedia de alcançar o mais elementar de uma realização pessoal -- a impedia de comer em público, de arrumar um namorado. Ao ser convidada para jantar por um pretendente, a moça buscou de alguma maneira conseguir um adiantamento dos patrões e fazer uma cirurgia, mas eles negaram (os caras praticavam pagamento parcialmente em tíquetes para uso na própria loja, uma coisa meio feudal). Ao procurar seus direitos, a pobre moça seria perseguida e demitida, ficando numa situação ainda pior.

A reflexão a que cheguei é muito simples: embora concorde que com o governo Lula as coisas não tenham melhorado como deveriam, e eu acho veementemente isso, ao menos algumas pessoas passaram a ter condições menos indignas de vida. Eu, como militante político de classe média, posso ter minhas convicções e lutar por elas, mas não tenho o direito de ignorar a realidade, até porque não sofro o que sofrem aqueles que estão verdadeiramente à margem desta sociedade capitalista. Muitas pessoas hoje podem sorrir devido aos paliativos do governo federal.

É fato que pouca diferença eu poderia sentir diretamente entre um governo petista ou tucano. Mas, enquanto houver alguma diferença mínima, ainda que sentida apenas por uma parcela mínima da população necessitada, eu optarei pelo menos pior. Afinal, o meu conceito de revolução é plenamente condizente com barriga cheia e dentes na boca.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Guia politicamente raso da história do Brasil


Já faz mais de um mês que chegou às livrarias de todo o país o Guia politicamente incorreto da história do Brasil. Antes disso, no entanto, eu já havia tido acesso a seu conteúdo e propósitos. E por que escrevo sobre ele somente agora? Por ter terminado de ler? É claro que não, não foram todos os capítulos que li até o fim, e por falta de tempo ou de estômago nunca consegui avançar mais de três ou quatro páginas numa tacada só.

Mas asseguro que li mais do que o suficiente para escrever algumas linhas a respeito. E o faço só agora porque foi agora que o livro chegou às listas de mais vendidos dos grandes jornais e revistas brasileiros, o que de certo modo me preocupa. A despeito da riqueza da forma, o conteúdo é bastante problemático. Vejamos por quê.

"Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias [...] escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos" é o que promete o autor, Leandro Narloch, ex-repórter da revista Veja – e não poderia mesmo ter saído de outro lugar. Ele se autoproclama membro do que considera a "nova historiografia que ganha força no Brasil", que vai contra o "politicamente correto". Traduzo: trata-se de uma movimentação revisionista que busca dar respaldo a uma visão elitista de mundo e que engloba do caçador de livros didáticos "hereges" Ali Kamel ao pessoal que considera branda a ditadura que neste país prendeu, torturou e matou.

A provocação do autor até funciona, quem na vida aprendeu alguma coisa sobre história não tem mesmo como não ficar furioso. O que enfurece de verdade, no entanto, não são as posições em si, frágeis, mas o modo como são apresentadas. Não vou me estender muito, deixaria isso a cargo de historiadores ou jornalistas de verdade, caso eles levassem a sério tamanha petulância. Não vão, eu sei, então faço aqui as vezes de ao menos registrar o repúdio. E o faço como estudante militante de esquerda, deixo claro, porque não pretendo me esconder atrás de falsa imparcialidade. E me defendo de antemão: apesar de comunista, não como, nunca comi e nem pretendo comer criancinhas. Nem torturar pessoas inocentes ou fazer uma revolução que institua pela força um governo tirânico no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.

A minha discordância com relação à obra eu tentarei apresentar brevemente, em linhas gerais, sem chavões ou pretensão de certezas. Narloch é do tipo que acredita em verdades absolutas. Para ele, existem os fatos históricos e as distorções. Os fatos, é claro, são aqueles que ele metafisicamente reconhece como tais. E as distorções seriam obras de comunistas sedentos de poder ou de esquerdistas de qualquer espécie. O que há entre nós é uma concepção diferente da história. Expliquemos.

Nós, seres humanos, vivenciamos os fatos e, a partir dos nossos sentidos (excetuando-se o sexto deles), captamos a realidade que concretamente a eles se apresenta. Quando colhemos sensações e passamos a interpretá-las, utilizamos os instrumentos de que dispomos, nossos valores, experiências etc. Eles funcionam como filtros, que invariavelmente fazem com que ao fim tenhamos uma versão dos fatos. Não somos "puros" e esse processo de aquisição de conhecimento não poderia resultar em nada além do que mera interpretação, que pode estar mais próxima do real de acordo com a maior abundância de instrumentos que o indivíduo tenha à sua disposição, bem como a vontade de empregá-los.

Narloch, em sua cruzada contra o que chama de "historiografia militante", se esquece de que somos todos portadores de uma ideologia, sistema de idéias que serve como bússola para que o indivíduo encontre seu espaço na sociedade. Os "apolíticos" e "apartidários", conscientemente ou não, agem de forma igualmente ideológica quando atacam os adeptos declarados de um projeto político. E o autor, ainda que não seja necessariamente fascista, é um jornalista de direita, mesmo que não admita. Talvez ele diga que essa divisão não mais existe, como faz a típica nova direita brasileira, pois sabe como soa mal defender bandeiras tão retrógradas em tempos em que a humanidade dispõe de tantos recursos para viver em plenitude, harmonia e igualdade.

É verdade que, com a queda do muro de Berlim e a conseqüente dissolução da União Soviética, o senso comum da década de 1990 foi tomado pela idéia neoliberal absurda de fim da história e das ideologias, com vitória final e irreversível do capitalismo, que seria a ordem natural das coisas, contra o comunismo que atentaria contra a natureza do homem. Era a crença equivocada de que o ser humano havia deixado de ser humano. Mas, mesmo assim, a tentativa dos poderosos de contar a versão deles da história nunca vingou efetivamente no país, pois sempre contamos com a resistência de intelectuais comprometidos com uma visão que contemplasse a voz daqueles a quem é negado o direito de expressão, ainda que tivessem por isso de enfrentar os privilegiados e muitas vezes abrir mão de seus interesses individuais. Não são infalíveis, é claro, mas uma interpretação equivocada não é necessariamente fruto de má-fé. Estamos falando de humanos, e não de vilões.

Quem mandava no Brasil durante o período ditatorial ainda manda hoje, embora tenha mudado o arranjo. O regime representativo da democracia formal atualmente em vigor abre possibilidades de transformação, como a chegada de um ex-operário ao poder, mas foi o medo dos donos do poder econômico de perderem efetivamente o político que permitiu tais concessões, mas as exigiu também do lado petista. É sabido que tanto ricos como pobres, embora preservem certa margem de liberdade em suas ações, estão presos a uma estrutura social herdada de muitos anos e de muitos homens, não se trata de mocinhos ou bandidos, mas de indivíduos desempenhando determinado papel social numa sociedade desequilibrada, que condiciona o sucesso de uns à necessária desventura de outros. É o sistema capitalista competitivo que alguns consideram o melhor que o ser humano pode conceber. Sinceramente, tenho a ligeira impressão de que somos um pouco menos medíocres do que isso.

A estratégia do Narloch é bastante simples: narrar os fatos como se fossem óbvios e tratar os oponentes como se a estupidez deles fosse igualmente evidente, mesmo que para isso tenha sido obrigado a preencher lacunas com a imaginação para tornar o texto fluido e atraente. Ele abusa no uso de adjetivos, chegando ao descalabro de atribuir toda a guerra do Paraguai ao "vaidoso, cruel e louco" presidente Solano Lopez, ainda que para tanto tenha precisado desprezar todo o estudo das relações internacionais, que consideram essa forma de análise (primeiro imagem, segundo o teórico estadunidense Kenneth Waltz) insuficiente. É tão ridículo quanto atribuir a Hitler toda a culpa pelo nazismo, mas Narloch não hesitou em escrever com coragem tamanha besteira. Talvez pelo fato de a folha de papel em branco que esteve postada à sua frente, coitada, não ser dotada da capacidade de replicar.

Publicado originalmente no Correio da Cidadania, em 27 de janeiro de 2010.

sábado, 23 de maio de 2009

Para entender o Abril Vermelho do MST


Eric Nepomuceno, um jabuti


Na noite do dia 29 de outubro do ano passado, em São Paulo, ocorreu a cerimônia de entrega das estatuetas da 50ª edição do Prêmio Jabuti, cujos vencedores já eram conhecidos desde o dia 23 do mês anterior. O concurso literário, um dos mais tradicionais e prestigiados do país, é organizado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), entidade que reúne diversas empresas do setor livreiro nacional.

Desde 1958, quando o prêmio foi idealizado pelo então presidente da CBL, Edgar Cavalheiro, os primeiros colocados de cada categoria recebem prêmios em dinheiro. Já as estatuetas são estendidas também aos segundos e terceiros lugares. E, nesta edição de 2008, é justamente um livro detentor de uma segunda colocação – na categoria de livro de reportagem – que merece nota, seja pela relevância do tema ou pela maestria com que foi escrito. Ou ainda pelo desejo manifesto do autor de ver a justiça sendo feita neste país em que ele tanto demonstra acreditar.

Trata-se de O Massacre – Eldorado do Carajás: uma história de impunidade (Planeta, 2007), de Eric Nepomuceno, jornalista, escritor e tradutor respeitado por seu trabalho e pela coerência e retidão com que o desempenha. A obra, que conta com um belo projeto de miolo e de capa, traz fotos de Sebastião Salgado, fotógrafo mineiro reconhecido mundialmente por seu estilo singular de captar imagens e momentos, sem dúvida um dos mais respeitados repórteres fotográficos da atualidade, com atuação marcada principalmente por voltar suas lentes para a vida daqueles que vivem à margem da sociedade, dos excluídos em geral.

Ao avançar pelas primeiras páginas de O Massacre, o leitor logo percebe a profundidade do mergulho que está prestes a dar na história contemporânea do Brasil – e também que está diante de um iminente clássico desta. Ao longo das cinco décadas de premiação do Jabuti, criadores e criaturas entraram para a história literária brasileira, como Jorge Amado, premiado na categoria romance da primeira edição do concurso por Gabriela, Cravo e Canela. Eric Nepomuceno, a seu modo, arrisca-se certamente a trilhar caminho semelhante.

Uma vez iniciada a leitura, embarca-se em uma viagem no tempo de cerca de onze anos. Chega-se à tarde do dia 17 de abril de 1996. O leitor é também levado a viajar no espaço – sem sair do lugar, é claro – rumo à região Norte do Brasil. Mais precisamente, até a margem da rodovia PA-150, a escassos quilômetros de Eldorado do Carajás, no local conhecido como Curva do S. Lá, uma marcha pacífica organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com cerca de 2500 trabalhadores oriundos da ocupação da fazenda Macaxeira, rumava para Belém a fim de levar suas reivindicações ao governo estadual. No caminho, porém, decidiram bloquear a estrada como forma de protesto ante o descaso das autoridades em relação às suas reivindicações, que incluía comida e ônibus para que chegassem à capital paraense.

A estrada seria desobstruída com brutalidade: cerca de 150 policiais militares – armados inclusive com itens alheios ao seu arsenal, como foices e carabinas – promoveram uma verdadeira matança, abrindo fogo contra uma multidão indefesa, em que havia até mesmo mulheres e crianças. Do lado dos sem-terra, dezenove foram os mortos e 69, os feridos – dos quais três viriam a falecer posteriormente em decorrência de complicações causadas pelos tiros. Isso sem contar os traumas psicológicos e os fantasmas da lembrança, que assombram até hoje os dias e as noites de grande parte dos sobreviventes. Do lado policial, onze foi o número de feridos, mas, ao contrário da versão que as elites locais ensaiaram sustentar à época, não houve confronto. Eric é categórico: essa classificação é um atrevimento, o que houve de fato foi uma carnificina premeditada, em que praticamente todos os mortos o foram com os mais macabros requintes de crueldade.

Do poder público, não haveria nada a esperar. Este tinha lado na trincheira. Foi do então governador do Pará que partiu a ordem para a ação da polícia. Os grandes proprietários de terra tinham muita influência nas decisões políticas, e os seus interesses eram os que prevaleciam. A relação era mesmo promíscua: os fazendeiros eram acusados ainda de ter criado um fundo para auxiliar a PM no combate aos sem-terra. Ao final do festival de horrores, conta-se, deram até festa para comemorar o “sucesso” da operação – no caso, tirar a vida dos dirigentes do movimento. Infelizmente, os assassinos teriam mesmo muito a comemorar.

Após dois inquéritos – um militar e um civil – e julgamentos obscuros, somente duas pessoas seriam condenadas: um coronel da PM e seu subordinado de maior patente. Ambos ficaram nove meses recolhidos em estabelecimentos da polícia. Hoje, estão em liberdade. De resto, estão todos livres, leves e soltos. Daí ser o livro de Eric indispensável. Segundo o próprio, ele não tem a intenção de revelar informações bombásticas, mas de recordar um evento brutal e de soprar as brasas desse trágico momento, para que as lembranças não virem cinzas mortas.

Apesar de hoje o MST reconhecer ter errado em sua avaliação – segundo Nepomuceno, os dirigentes achavam que as matanças haviam sido suspensas e que havia espaço para radicalização –, é possível fazer um balanço equilibrado e ponderar que resultados foram obtidos com a marcha: se, por um lado, ficaram os traumas e as famílias dilaceradas, por outro, o governo federal do então presidente Fernando Henrique Cardoso foi levado a desocupar a Macaxeira, a instalar o assentamento e a mudar a sua política com relação à reforma agrária frente à pressão da opinião pública. O assentamento se estruturou, superou a agricultura de subsistência e é hoje referência na luta pela democratização da terra. Foi também do massacre que surgiu o chamado “Abril Vermelho”, jornada de ocupações promovida pelo MST no mês de abril para exaltar a resistência daqueles que perderam a vida lutando por dignidade. E, além disso, a partir de então o 17 de abril passou a ser o Dia mundial de Luta pela Terra.

Eric Nepomuceno levou cerca de três anos, do início de 2004 a junho de 2007, para nos presentear com essa bela obra. Consultou testemunhas, livros, processos, relatórios, boletins, inventários, dossiês, inquéritos, artigos, ensaios, jornais e revistas para reconstituir os fatos. Ele narra com altiva sensibilidade a peleja desses brasileiros desafortunados. Leva ao leitor o sofrimento e a angústia que seguramente imperaram na ocasião. Toca o coração daqueles brasileiros que têm respeito e amor pelo próximo. E toca também a mente daqueles que se recusam a achar aceitável que 1% da população concentre 46% das terras em suas mãos enquanto 10% não têm terra ou teto, segundo dados de 2006 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentados no livro. A situação, alarmante, em pouco mudou até hoje.

Uma breve pesquisa a respeito do motivo da escolha do jabuti como símbolo do prêmio nos traz uma reflexão bastante interessante. O jabuti seria o animal, de acordo com o folclore brasileiro, que se distingue pela paciência e pela tenacidade com que vence os desafios e, por essa razão, fora escolhido para representar a atividade de escritores, editores, livreiros e gráficos. O jabuti aceitaria sempre os desafios em que a vitória, de antemão, parece sorrir ao adversário, ilusão que logo se desfaz, pois o vencedor é o perseverante e pachorrento personagem do nosso folclore. “Diante do desafio, ele parece sempre sustentado pela convicção íntima de que será o vitorioso, não importam os obstáculos”, diz o site da CBL. Eric Nepomuceno simboliza, com mais propriedade do que qualquer outro premiado, as qualidades de um jabuti. Hoje, o triunfo parece sorrir aos autores do massacre. Escrever um livro que vai contra a corrente do poder estabelecido parece tempo perdido, mas não para Eric, que carrega dentro de si uma chama de esperança na conquista de dias melhores. Chama um tanto pertinaz, diga-se. Para a sorte de todos nós.

Alguns podem pensar que a jornada terminou no dia 20 de abril, quando as vítimas foram enterradas. Porém as cicatrizes continuam abertas. A busca por justiça não é movida por rancor, vingança ou revanchismo; estes sentimentos espúrios são a marca dos algozes. Uma sobrevivente, a certa altura, diz a Eric: “Eu queria esquecer o massacre, mas não dá. Quando a gente anda na rua, encontra sempre uma viúva, um outro mutilado, um órfão...”. Eric Nepomuceno discorre sobre um tema de relevância e atualidade inquestionáveis, imprescindível para o entendimento da nação em que vivemos. Ele mereceu ser premiado, sem dúvida, mas a melhor recompensa e reconhecimento que poderia almejar é a justiça. O prêmio veio rápido, é verdade. A justiça, no entanto, ameaça vir a passos lentos, talvez mais vagarosos até que os de um jabuti.

Esta resenha foi publicada originalmente no Correio da Cidadania, em 18 de novembro de 2008.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Em tempos dramáticos, a validade do apelo melodramático



Baseado no livro homônimo de Bernhard Schlink, o filme O leitor tem em seu elenco a ganhadora do Oscar de melhor atriz de 2009, Kate Winslet, que interpreta uma humilde cobradora de bonde que acaba por envolver-se sexualmente com um jovem (Michael, interpretado por David Kross) cerca de 20 anos mais novo. A mistura de literatura e sexo torna o caso dos dois curioso, mais próximo da inocência que do vulgar. Até que Hanna, a cobradora, some de maneira enigmática.

O longa se passa na Alemanha dos anos 1950, após a derrocada nazista. E o nazismo não passa incólume. Após o sumiço de Hanna e o longo tempo que ela e Michael passam longe um do outro, os dois se encontram em um julgamento de crimes cometidos por nazistas. Ele como estudante de direito, ela como ré. A temática do nazismo parece esgotada, mas com O leitor percebemos que sempre há espaço para uma abordagem nova, diferente.

O inusitado é a superação da forma geralmente maniqueísta ou simplista por meio da qual o tema é tratado. Aqueles que julgam ser conhecedores da verdade absoluta e inquestionável terão motivos para entrar em crise com suas certezas. Um colega de curso de Michael considera criminosos todos que deixaram de se levantar de alguma forma contra as barbaridades empreendidas pelos nazistas. A tese parece válida... mas será mesmo?

O filme levanta uma série de questões interessantes para reflexão e uma delas é justamente deixar de lado preconceitos e buscar entender as motivações que levaram uma parcela da sociedade dos países dominados pelo nazi-fascismo a apoiá-lo, ainda que tacitamente. A sugestão de que o mundo, no período da Segunda Guerra, não se dividia entre pessoas boas, de um lado, e nazistas, de outro, soa algo óbvia.

Hanna é levada a julgamento e abdica de se defender, curiosamente, o que constitui o mistério a ser revelado pelo espectador. Suspense este intimamente ligado ao porquê de ela ter de certo modo participado do regime do Füher. Já repararam como a ignorância ajuda e eleger e a manter regimes e políticos da pior espécie no poder? Às vezes parece acaso; às vezes, não. E não se trata de absolver os crimes cometidos, mas de buscar compreendê-los.

A leitura, como mostra o filme, tem poder: liberta mentes, derruba barreiras, amplia horizontes e, assim, possibilita a construção do novo – como uma sociedade de homens e mulheres livres, por exemplo. Livres não por serem definidos assim no papel, numa lei ou algo do gênero. Livres por terem sido emancipados, por poderem pensar com suas próprias cabeças. Livres da manipulação do poder, seja ele político ou econômico. O acesso ao saber, nota-se, é o melhor que se pode fazer contra as tiranias e todo o mal que delas advém.

Alguns podem classificar O leitor como melodramático, e talvez o seja mesmo, mas esse ainda parece ser um valioso instrumento para abrir olhos, tocar corações e inquietar mentes em tempos de crise econômica e descrença política. Indicado para quem busca mais que entretenimento, para quem busca uma boa reflexão – e, sobretudo, forças para lutar por dias melhores.


(Texto publicado na edição de fevereiro de O Diplomático)