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sábado, 29 de outubro de 2011

A autonomia da USP!*

Por Lincoln Secco, Livre Docente em História Contemporânea na USP

Não é comum ver livros como armas. Enquanto no dia 27 de outubro de 2011 a imprensa mostrou os alunos da FFLCH da USP como um bando de usuários de drogas em defesa de seus privilégios, nós outros assistimos jovens indignados, mochila nas costas e livros empunhados contra policiais atônitos, armados e sem identificação, num claro gesto de indisciplina perante a lei. Vários alunos gritavam: “Isto aqui é um livro!”.

Curioso que a geração das redes sociais virtuais apresente esta capacidade radical de usar novos e velhos meios para recusar a violação de nossos direitos. No momento em que o conhecimento mais é ameaçado, os livros velhos de papel, encadernados, carimbados pela nossa biblioteca são erguidos contra o arbítrio.
Os policiais que passaram o dia todo da ultima quinta feira revistando alunos na biblioteca e nos pátios, poderiam ter observado no prédio de História e Geografia vários cartazes gigantes dependurados. Eram palavras de ordem. Algumas vetustas. Outras “impossíveis”. Muitas indignadas. E várias poéticas... É assim uma universidade.

A violação da nossa autonomia tem sido justificada pela necessidade de segurança e a imagem da FFLCH manchada pela ação deliberada dos seus inimigos. A Unidade que mais atende os alunos da USP, dotada de cursos bem avaliados até pelos duvidosos critérios de produtividade atuais, é uma massa desordenada de concreto com salas superlotadas e realmente inseguras. Mas ainda assim é a nossa Faculdade!

É inaceitável que um espaço dedicado á reflexão, ao trabalho, à política, às artes e também à recreação de seus jovens estudantes seja ameaçado pela força policial. Uma Universidade tem o dever de levar sua análise crítica ao limite porque é a única que pode fazê-lo. Seus equívocos devem ser corrigidos por ela mesma. Se ela é incapaz disso, não é mais uma universidade.

A USP não está fora da cidade e do país que a sustenta. Precisa sim de um plano de segurança próprio como outras instituições têm. Afinal, ninguém ousaria dizer que os congressistas de Brasília têm privilégios por não serem abordados e revistados por Policiais. A USP conta com entidades estudantis, sindicatos e núcleos que estudam a intolerância, a violência e a própria polícia.

Ela deve ter autonomia sim. Quando Florestan Fernandes foi preso em 1964, ele escreveu uma carta ao Coronel que presidia seu inquérito policial militar explicando-lhe que a maior virtude do militar é a disciplina e a do intelectual é o espírito crítico... Que alguns militares ainda não o saibam, é compreensível. Que dirigentes universitários o ignorem, é desesperador.

(*Ótimo texto do ótimo professor Lincoln Secco, para ajudar a entender a polêmica em torno da presença da Polícia Militar dentro do ambiente universitário.)

sábado, 22 de outubro de 2011

Lições de Hogwarts aos estudantes da Universidade de São Paulo


“O mundo não se divide entre pessoas boas e Comensais da Morte”, disse a Harry Potter seu padrinho Sirius Black no quinto filme da série – palavras arrancadas, salvo engano da memória, da boca do professor Remus Lupin no terceiro livro.

Antes que este texto suscite algum tipo de expectativa inapropriada, vale a advertência de que não há aqui pretensão alguma de crítica de cinema nem tampouco de crítica literária sistematizada e aprofundada ou de estudo sociológico metodologicamente rigoroso. O que se pretende é apenas compartilhar considerações soltas acerca da série de livros “Harry Potter” bem como sugerir alguma relação entre os movimentos estudantis bruxo e trouxa. Tudo isso faz parte de um esforço paralelo maior de interpretação e compreensão da obra que, infelizmente, não é possível reproduzir nestas escassas linhas.

“Harry Potter” não é uma narrativa arranjada segundo qualquer tipo de maniqueísmo pueril. Ela é em certo sentido complexa – e, quando digo “complexa”, tenho em mente instrumentos apropriados, nem sempre da maneira mais ortodoxa, da obra do brilhante crítico Antonio Candido. Para ele, a “formação do homem” é função da literatura, não no sentido de “pedagogia oficial”, mas como algo que “age com o impacto indiscriminado da própria vida e educa como ela – com altos e baixos, luzes e sombras”, o que “humaniza em sentido profundo, porque faz viver”. Para desempenhar tal função, alguma complexidade é requisito, e acho que neste ponto a autora J.K. Rowling foi de alguma forma bem-sucedida. A leitura de “Harry Potter” a seu modo educa.

A compreensão que sugiro da narrativa é enquanto arranjo dialético tecido a partir das sucessivas contraposições entre as visões de mundo conservadora e progressista (polarização direita X esquerda, se preferirmos), que culminam ciclicamente em duelos entre Harry Potter e Lord Voldemort. Teríamos então, de um lado, uma visão de mundo democrática e igualitária, aberta ao aprimoramento do ser humano e suas relações por meio da razão e da reflexão crítica. E, de outro, uma assustadora visão em torno de valores de disciplina cega e superioridade bruxa em relação às outras criaturas mágicas (outras civilizações) e aos chamados trouxas (idem), bem como à miscigenação envolvendo os primeiros e qualquer um dos dois últimos “outros”.

É a partir do volume “Harry Potter e a Ordem da Fênix” que passamos a notar um maior amadurecimento político na série. Avançando para a questão mais propriamente estudantil, podemos arriscar aqui algumas curiosas analogias com relação à nossa USP: Armada de Dumbledore como reação à intervenção ministerial em Hogwarts (ocupação da Reitoria em 2007 como resposta à violação da autonomia da USP), nomeação de Dolores Umbridge como “alta inquisidora” de Hogwarts e sua missão de conservar o saber teórico descolado da realidade prática (nomeação de João Grandino Rodas como reitor e sua visão igualmente conservadora), brigadas inquisitoriais (“policiais-estudantes” recentemente anunciados como medida de segurança pela reitoria), rejeição à presença de dementadores em Hogwarts (polêmica em relação à entrada da PM na USP) etc.

A instituição máxima responsável por produção e divulgação do “saber” numa sociedade, bruxa ou trouxa, tem grandes responsabilidades como reduto de pensamento crítico (e a passagem do último livro em que Hogwarts se defende das forças das trevas é de arrepiar nesse sentido). Acontece que o nosso mundo também não se divide entre pessoas boas e a direita, por assim dizer, e idealizar o contrário não é senão sinal de imaturidade. Resgatando desta vez o Candido militante: o socialismo para ele, por exemplo, não é forma de pensar, mas sobretudo uma questão ética, de conduta. Ou seja, seriam as escolhas que fazemos (não na retórica mas frente aos dilemas concretos com os quais nos deparamos no dia a dia da vida em sociedade) que demonstram quem de fato somos e de que lado verdadeiramente estamos.

“Se eu fosse Você-Sabe-Quem, seria assim que eu gostaria que você se sentisse, sozinho, pois desse modo não seria uma ameaça”, disse a Harry Potter sua encantadora colega Luna Lovegood. Quando Lord Voldemort reuniu seguidores e se infiltrou no Ministério da Magia, foi apenas por meio da organização coletiva, a despeito de suas eventuais imperfeições, que Harry e seus companheiros conseguiram resistir, e não de acordo com o individualismo largamente professado em nosso mundo pretensamente “pós-ideológico”.

Sendo assim, podemos dizer que a militância de esquerda no movimento estudantil, apesar dos inevitáveis desapontamentos que nos traz em relação a pessoas e situações, vale a pena. Por um lado, porque nos torna mais fortes na luta para fazer valer nossos ideais (para ter êxito, no entanto, toda forma de dogmatismo e sectarismo precisa ser afastada, haja vista o exemplo da Armada de Dumbledore e mesmo o da Ordem da Fênix). Por outro, porque essa experiência na universidade, com suas luzes e trevas, ao menos nos prepara (como a boa literatura) para a dura vida fora dela.


(Texto originalmente publicado na terceira edição do jornal O KULA, p. 18.)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crônica de uma batalha chilena



– Queremos discutir a educação seriamente, acabar com o lucro. Até agora, a única resposta efetiva que [o governo] deu foi a violência policial.



15/08/2011


João Carlos Ribeiro Jr.*


Na praça da periferia de Santiago, no bairro Los Quillayes, vários grupos conversam entre si, cambiando pessoas e ansiedades. Um casal troca cachecóis. Ajeitam-se, sorriem. Ficam um pouco mais elegantes, mas não estão pensando nisso. Além de se esquivar do frio típico de agosto, pensam em proteger o rosto dos gases tóxicos que a polícia costuma lançar. Sentem medo de serem presos, de ficarem separados.


*


As ruas da cidade são repletas de cachorros. Grandes, mansos, simpáticos. Parecem gostar da agitação e do barulho do único tambor que dita o ritmo das palavras de ordem.¡Y va a caer... Y va a caer... La educación de Pinochet! Y va a caer! Os cachorros correm ao lado da massa estudantil, vão e voltam. Chega um carro da polícia. ¡Paco, farsante! Tu hijo es estudiante! Os policiais ficam na viatura, é a primeira vez que se vê um rosnado.


*


– Queremos discutir a educação seriamente, acabar com o lucro. Por isso acho que nossas reivindicações não são apenas estudantis, vão muito além. Nossos pais, professores, vizinhos sabem que se triunfarmos os prejudicados serão a minoria que ganha muita grana em cima de nós. Mas o governo não entende que o povo pode ir à rua. Até agora, a única resposta efetiva que deu foi a violência policial.


*


A avenida Concha y Toro é muito larga e estica-se até os olhos espremerem-se para ver onde termina. Isso não desanima a caminhada, pelo contrário. Das seis faixas, três estão tomadas. Dos carros que precisam desviar, alguns soltam impropérios. Muitos buzinam em sinal de apoio. O entusiasmo avança.


*


As músicas não param. Há um garoto magricelo à frente que puxa um novo grito quando as vozes altas escasseiam. ¡Chi! Chi! Chi! Le! Le! Le! Estudiantes de Chile! O levante da alegria, de novo. Um senhor fumante, barbas brancas vistosas, adere à passeata. Não grita a plenos pulmões. ¡A ver, a ver! Quem lleva la batuta! Los estudiantes! O los hijos de puta! Um sorriso parece um farol.


*


Mais duas viaturas, a tensão se intromete. Não querem deixar a marcha seguir, mas os passos são determinados. Motocicletas de carabineros também surgem, tentam formar uma fila para forçar a passeata a ir para calçada. Parece uma barreira de areia, ridiculamente, tentando empurrar o mar.


*


A juventude incita os que saem do metrô a entrar no protesto. Muitos olham atônitos, outros com simpatia. ¡Vamos, compañeros, hay que ponerle um poco más de empeño! Salimos a la calle nuevamente! La educación chilena no se vende, se defiende! Uma mulher saca o celular e verifica as horas. Talvez tenha que completar sua segunda jornada do dia, pode ser que tenha um encontro importante, pode ser que o cansaço seja demasiado. Ela cerra o punho e levanta a mão esquerda. O movimento sabe que cresce. Os estudantes aplaudem e gritam.


*


Agora engrossou a fila silenciosa de carabineros. Atravancam o caminho. Formam uma barreira mais fortificada, viaturas mais alinhadas, bombas e cassetetes prontos. Caminar! Caminar! Por la calle principal! Na calçada, muitas trombadas e preocupação. Alguns aceleram o passo, outros diminuem, mas é na rua que a revolta se realiza. Mar arrebenta.


*


A violência desorganiza a beleza, persegue, ataca. A correria não tem direção. Bomba. A porta do prédio está fechada e mais uma bomba explode ao lado do jovem que procura o irmão mais novo. O temor está disparado, mas ele sente o coração acalmar quando vê o caçula num grupo que entra na rua lateral sem placa. Sabe que o moleque é esperto. Sente o incômodo da fumaça e corre.


*


Uma cena patética e bela. Na faixa da garota, que parece não passar dos quinze anos de idade: “Educação gratuita”. Simples, direta, a mensagem é surpreendentemente revolucionária. Um policial avança e agarra a faixa. Corajosa, a menina resiste, disputa a pequena bandeira que ela mesma fez. Enfrenta a insensata força física e a intolerância do Estado. Perdeu a faixa; fará outra.


*


Estudantes são presos e as pessoas se espalham. O comércio fechou as portas. Mas a caminhada continua, mesmo espalhada. Reunião dispersa. Um grupo de garotos e garotas no ponto de ônibus, visivelmente abatidos. Um outro chega e diz para continuarem, seguirem. No apartamento do primeiro andar, de frente, a janela pra rua é aberta. Uma moça começa a bater uma imensa colher numa panela. Mais janelas se abrem.


*


– É claro que tenho medo às vezes. Mas sabe uma coisa que me dá vitalidade? É pensar que estamos conectados com os eventos mais significativos de agora. Veja o que acontece no Egito, Tunísia. Veja os espanhóis indo pra praça, como nós. Eu acho mesmo que aqui há também uma primavera. Desafiamos até o inverno!

E cai na gargalhada. Agora buscam a Plaza Puente Alto. A praça é o encontro, o abrigo da revolta, e está logo ali, iluminada.


*


Não se sabe se satisfeitos com as prisões ou se constrangidos com o barulho docacerolazo, das buzinas, mas o fato é que a maioria dos policiais vai embora. Os que sobram vão para uma ponta da praça. Observam e ficam em silêncio. Pensam em seus filhos? Vengan! Vengan a ver! Este no es un gobierno! Son puras leyes de Pinochet!


*


Algumas pessoas falam, discursam, avaliam o ato e convocam todos para o próximo. Haverá uma passeata no centro, expectativa grande. Alguns saíram em busca da libertação dos que foram levados. Sabem que precisam ser rápidos para que eles não sejam muito castigados. A alegria topou o confronto. Nesta mesma noite, manifestações parecidas ocorreram em muitas partes de Santiago. Em todas, muitos lenços palestinos são vistos.

– Veja bem, muitos tratam isso aqui como rebeldia estudantil, não é disso que se trata. A rebeldia é um direito de todos, e está se espalhando, é a forma mais bonita de autonomia, é pura criação.


*


O casal tira os cachecóis. Estão com calor porque correram um pouco. Despedem-se de três amigos e descem as escadas para entrar no metrô, de mãos dadas. Os que ficam continuam conversando.

– Você se sente numa batalha?

– Claro que sim!

– Uma batalha de ideias.

– Essa eu acho que já ganhamos. Querem comer algo?


*João Carlos Ribeiro Jr. é formado em Ciências Sociais pela USP e editor. Esteve no Chile recentemente.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Lançamento da campanha "Tarifa Zero"

Reproduzo abaixo o cartaz de lançamento da campanha "Tarifa Zero", impulsionada pelo Movimento Passe Livre de São Paulo (MPL-SP). A atividade (que rola às 18h dessa próxima sexta-feira, 19/8, na Sanfran) é só o começo, porque a ideia da galera é coletar assinaturas para a aprovação do Projeto de Lei de iniciativa popular que prevê a gratuidade no transporte público por ônibus na cidade de São Paulo. Acho ótimo. Até porque, quando eu era pequeno, me intrigava o adesivinho com a inscrição "Transporte público: direito do cidadão, dever do Estado" colocado nas laterais de cada coletivo. Perguntava: se é direito, por que pagamos então? Porque uns tem "mais direitos" do que outros, responderia eu hoje ao menino ingênuo de outrora. Agora, nesses nossos dias correntes de 2011, ao passarem pelas gestões Serra e Kassab, os ônibus perderam até o adesivo, sinal de que a disposição dos governantes de turno é decididamente pelo retrocesso na promoção dos direitos sociais. Nada mais oportuno do que essa campanha do MPL, portanto, à qual eu declaro meu total apoio.


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Qual seria a reação do Füher ao Wikileaks?

Nem é preciso gastar o que resta de imaginação neste fim de ano para poder visualizar a cena. Basta assistir ao vídeo abaixo, que traz um trecho do filme "A queda -- As últimas horas de Hilter" com legenda engraçadíssima e com a inacreditável coincidência da pronúncia na parte em que Hitler parece mesmo dizer "Wikileaks".

Aproveitando a oportunidade, parece que neste mês há uma entrevista sobre comunicação e democracia com Marilena Chauí na "Caros Amigos". Neste caso do Wikileaks, vale também a questão posta por Antonio Luiz M.C. Costa, da "CartaCapital": fossem os segredos de Estado vazados pelo Wikileaks relacionados aos inimigos dos EUA, Julian Assange seria tratado como herói...

Porém, como não são, o rapaz virou bandido perseguido pelo Império. Dois pesos e duas medidas, como sempre. E zero de democracia.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O que vi da 34ª Mostra de Cinema de SP (e o que ficou)

A 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo trouxe, como era de se esperar, ótimos (e raros) filmes ao circuito paulistano, só que por um curto período de tempo. Eu, pela correria e desorganização de sempre, quase não assisti a nenhum. Mas acabei vendo um. Uma experiência, digamos, bastante heterodoxa.

Eu cheguei ao cinema sem saber o que viria pela frente (aceitar convites de última hora dá nisso). Esperava, como os amigos que me acompanhavam, um filme que tratasse diretamente da Revolução Mexicana, com direito a Pancho Villa e Emiliano Zapata no roteiro. Não era nada disso.

O filme "Revolución" é uma série de 10 curtas-metragens feitos por 10 grandes cineastas mexicanos (até aí, estava escrito na sinopse), que teriam buscado, por ocasião do centenário da Revolução Mexicana (desencadeada em 1910), algo como um "compêndio de visões do México atual, com o objetivo de encontrar um eco daquele essencial momento da história do país [a tal da Revolução Mexicana]". Estas últimas informações eu viria a tomar conhecimento apenas no decorrer dos 100 minutos de filme.

"Revolución" é, de fato, um filme antropologicamente bastante rico. Traz à tona questões universais, sim, mas quando o faz é por meio de idiossincrasias, de especificidades locais. Não tenho por objetivo aqui falar longamente do conjunto nem de cada curta (até porque entendo muito pouco dessa tal de "sétima arte"). Gostaria, isso sim, de compartilhar a pertinência de um dos filmetes, do qual sequer me recordo o nome, para a decisão de um eleitor às vésperas do segundo turno da eleição presidencial brasileira.

No curta em questão, existia uma atendente de supermercado que não possuía os dois dentes da frente e usava uma espécie de dentadura. Isso a impedia de alcançar o mais elementar de uma realização pessoal -- a impedia de comer em público, de arrumar um namorado. Ao ser convidada para jantar por um pretendente, a moça buscou de alguma maneira conseguir um adiantamento dos patrões e fazer uma cirurgia, mas eles negaram (os caras praticavam pagamento parcialmente em tíquetes para uso na própria loja, uma coisa meio feudal). Ao procurar seus direitos, a pobre moça seria perseguida e demitida, ficando numa situação ainda pior.

A reflexão a que cheguei é muito simples: embora concorde que com o governo Lula as coisas não tenham melhorado como deveriam, e eu acho veementemente isso, ao menos algumas pessoas passaram a ter condições menos indignas de vida. Eu, como militante político de classe média, posso ter minhas convicções e lutar por elas, mas não tenho o direito de ignorar a realidade, até porque não sofro o que sofrem aqueles que estão verdadeiramente à margem desta sociedade capitalista. Muitas pessoas hoje podem sorrir devido aos paliativos do governo federal.

É fato que pouca diferença eu poderia sentir diretamente entre um governo petista ou tucano. Mas, enquanto houver alguma diferença mínima, ainda que sentida apenas por uma parcela mínima da população necessitada, eu optarei pelo menos pior. Afinal, o meu conceito de revolução é plenamente condizente com barriga cheia e dentes na boca.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O PSOL e o 2º turno

A despeito de estar bastante satisfeito com a nota da Executiva Nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) com relação ao segundo turno das eleições presidenciais, escreverei, se tudo der certo, um texto próprio, me posicionando por uma das opções recomendadas pelo partido, o voto nulo e o "voto crítico" em Dilma Rousseff. Por ora, me limito a reproduzir aqui, ainda no espírito de fomentar o debate sobre esse importante momento político pelo qual o país passa, alguns textos de figuras públicas do PSOL.

Eu pensei em comentar cada uma das posições, mas creio que seja desnecessário, até porque farei um texto defendendo o meu próprio posicionamento. E, ademais, não quero me indispor publicamente nem com Plínio nem com Heloísa Helena, dos quais neste momento eu respeitosamente discordo.


Deliberação da Executiva Nacional: por "nenhum voto em Serra", recomenda-se o voto nulo ou o "voto crítico" em Dilma Rousseff [leia a íntegra da nota]

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) mereceu a confiança de mais de um milhão de brasileiros que votaram nas eleições de 2010. Nossa aguerrida militância foi decisiva ao defender nossas propostas para o país e sobre ela assentou-se um vitorioso resultado.

Nos sentimos honrados por termos tido Plínio de Arruda Sampaio e Hamilton Assis como candidatos à presidência da República e a vice, que de forma digna foram porta vozes de nosso projeto de transformações sociais para o Brasil. Comemoramos a eleição de três deputados federais (Ivan Valente/SP, Chico Alencar/RJ e Jean Wyllys/RJ), quatro deputados estaduais (Marcelo Freixo/RJ, Janira Rocha/RJ, Carlos Giannazi/SP e Edmilson Rodrigues/PA) e dois senadores (Randolfe Rodrigues/AP e Marinor Brito/PA). Lamentamos a não eleição de Heloísa Helena para o Senado em Alagoas e a não reeleição de nossa deputada federal Luciana Genro no Rio Grande do Sul, bem como do companheiro Raul Marcelo, atual deputado estadual do PSOL em São Paulo.

Em 2010 quis o povo novamente um segundo turno entre PSDB e PT. Nossa posição de independência não apoiando nenhuma das duas candidaturas está fundamentada no fato de que não há por parte destas nenhum compromisso com pontos programáticos defendidos pelo PSOL. Sendo assim, independentemente de quem seja o próximo governo, seremos oposição de esquerda e programática, defendendo a seguinte agenda: auditoria da dívida pública, mudança da política econômica, prioridade para saúde e educação, redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, defesa do meio ambiente, contra a revisão do código florestal, defesa dos direitos humanos segundo os pressupostos do PNDH3, reforma agrária e urbana ecológica e ampla reforma política – fim do financiamento privado e em favor do financiamento público exclusivo, como forma de combater a corrupção na política.

No entanto, o PSOL se preocupa com a crescente pauta conservadora introduzida pela aliança PSDB-DEM, querendo reduzir o debate a temas religiosos e falsos moralismos, bloqueando assim os grandes temas de interesse do país. Por outro lado, esta pauta leva a candidatura de Dilma a assumir posição ainda mais conservadora, abrindo mão de pontos progressivos de seu programa de governo e reagindo dentro do campo de idéias conservadoras e não contra ele. Para o PSOL, a única forma de combatermos o retrocesso é nos mantermos firmes na defesa de bandeiras que elevem a consciência de nosso povo e o nível do debate político na sociedade brasileira.

As eleições de 2002, ao conferir vitória a Lula, traziam nas urnas um recado do povo em favor de mudanças profundas. Hoje é sabido que Lula não o honrou, não cumpriu suas promessas de campanha e governou para os banqueiros, em aliança com oligarquias reacionárias como Sarney, Collor e Renan Calheiros. Mas aquele sentimento popular por mudanças de 2002 era também o de rejeição às políticas neoliberais com suas conseqüentes privatizações, criminalização dos movimentos sociais – que continuou no governo Lula -, revogação de direitos trabalhistas e sociais.

Por isso, o PSOL reafirma seu compromisso com as reivindicações dos movimentos sociais e as necessidades do povo brasileiro. Somos um partido independente e faremos oposição programática a quem quer que vença. Neste segundo turno, mantemos firme a oposição frontal à candidatura Serra, declarando unitariamente “NENHUM VOTO EM SERRA”, por considerarmos que ele representa o retrocesso a uma ofensiva neoliberal, de direita e conservadora no País. Ao mesmo tempo, não aderimos à campanha Dilma, que se recusou sistematicamente ao longo do primeiro turno a assumir os compromissos com as bandeiras defendidas pela candidatura do PSOL e manteve compromissos com os banqueiros e as políticas neoliberais. Diante do voto e na atual conjuntura, duas posições são reconhecidas pela Executiva Nacional de nosso partido como opções legítimas existentes em nossa militância: voto crítico em Dilma e voto nulo/branco. O mais importante, portanto, é nos prepararmos para as lutas que virão no próximo período para defender os direitos dos trabalhadores e do povo oprimido do nosso País.

Executiva Nacional do PSOL – 15 de outubro de 2010.


Plínio de Arruda Sampaio: em defesa do voto nulo [leia a íntegra da declaração]



Para os socialistas, a conquista de espaços na estrutura institucional do Estado não é a única nem a principal das suas ações revolucionárias. Em todas estas, os objetivos centrais e prioritários são sempre os mesmos: conscientizar e organizar os trabalhadores, a fim de prepará-los para o embate decisivo contra o poder burguês.

Fiel a esta linha, a campanha do PSOL concentrou-se no tema da igualdade social, o que possibilitou demonstrar claramente que, embora existam diferenças entre os candidatos da ordem, são diferenças meramente adjetivas.

Isto ficou muito claro diante da recusa assustada e desmoralizante das três candidaturas a firmar compromissos com propostas de entidades populares - como a CPT, o MST, as centrais sindicais, o ANDES, o movimento dos direitos humanos - nas questões chaves da reforma agrária, redução da jornada de trabalho sem redução salarial, aplicação de 10% do PIB na educação, combate à criminalização da pobreza.

Não há razão para admitir que se comprometam agora, nem para acreditar que tais compromissos sejam sérios, como se vê pelo espetáculo deprimente da manipulação do sentimento religioso nas questões do aborto, do casamento homossexual, dos símbolos religiosos - temas que foram tratados com espírito público e coragem pela candidatura do PSOL. Nem se fale da corrupção, que campeia ao lado dos escritórios das duas candidaturas ora no segundo turno.

Cerca de um milhão de pessoas captaram nossa mensagem. Constituem a base de interlocutores a partir da qual o PSOL pretende prosseguir, junto com os demais partidos da esquerda, a caminhada do movimento socialista no Brasil.

O segundo turno oferece nova oportunidade para dar um passo adiante na conscientização. Trata-se de esmiuçar as diferenças entre as duas candidaturas que restam, a fim de colocar mais luz na tese de que ambas são prejudiciais à causa dos trabalhadores.

O candidato José Serra representa a burguesia mais moderna, mais organicamente ligada ao grande capital internacional, mais truculenta na repressão aos movimentos sociais. No plano macroeconômico, não se afastará do modelo neoliberal nem deterá o processo de reversão neocolonial que corrói a identidade moral do povo brasileiro. A política externa em relação aos governos progressistas de Chávez, Correa e Morales será um desastre completo.

A candidata Dilma Rousseff é uma incógnita. Se prosseguir na mesma linha do seu criador - o que não se tem condição de saber - o tratamento aos movimentos populares será diferente: menos repressão e mais cooptação. Do mesmo modo, Cuba, Venezuela, Equador e Bolívia continuarão a ter apoio do Brasil.

Sob este aspecto, Dilma leva vantagem sobre a candidatura Serra. Mas não se deve ocultar, porém, o lado negativo dessa política de cooptação dos movimentos populares, pois isto enfraquece a pressão social sobre o sistema capitalista e divide as organizações do povo, como, aliás, está acontecendo com todas elas, sem exceção.

O que é melhor para a luta do povo? Enfrentar um governo claramente hostil e truculento ou um governo igualmente hostil, porém mais habilidoso e mais capaz de corromper politicamente as lideranças populares?

Ao longo dos debates do primeiro turno, a candidatura do PSOL cumpriu o papel de expor essa realidade e cobrar dos representantes do sistema posicionamento claro contra a desigualdade social que marca a história do Brasil e impõe à grande maioria da população um muro que a separa das suas legítimas aspirações. Nenhum deles se dispôs a comprometer-se com a derrubada desse muro. Essa é a razão que me tranqüiliza, no diálogo com os movimentos sociais com os quais me relaciono há 60 anos e com os brasileiros que confiaram a mim o seu voto, de que a única posição correta neste momento é do voto nulo. Não como parte do "efeito manada" decorrente das táticas de demonização que ambas candidaturas adotam a fim de confundir o povo. Mas um claro posicionamento contra o atual sistema e a manifestação de nenhum compromisso com as duas candidaturas.


Parlamentares do PSOL: opção pelo "voto crítico" em Dilma Rousseff [leia a íntegra do manifesto intitulado "Entre dois projetos", assinado por parlamentares e membros da Executiva Nacional do partido]

Os 776.601 eleitores que votaram em candidatos do PSOL aos governos estaduais, 886.816 teclaram, convictamente, Plínio 50, os mais de 1 milhão que votaram em candidatos a deputado do PSOL e os mais de 3 milhões que escolheram candidatos ao Senado pelo PSOL não precisam de ‘tutores’: são livres, têm espírito crítico e votam, sempre, de acordo com sua consciência. Os nossos mandatos, daí derivados, serão exercidos, portanto, com total independência em relação aos Executivos e na defesa radical dos interesses populares, sem adesismos e sem negação de fronteiras éticas e ideológicas. Aos poucos, o PSOL, ainda incipiente, se afirma como partido com visão singular, combinando o embate eleitoral com a valorização dos movimentos sociais, dentro de sua definição estratégica de ressignificação do socialismo.

1. Partido Político digno do nome também deve se posicionar sobre momentos conjunturais, dando assim sua contribuição para a análise da situação e para a definição de voto da cidadania. Quando a manifestação política for emergencial, limitando, por questão de tempo, o processo democrático de discussões desde a base, que ela seja tomada pela Direção, por óbvio sem qualquer caráter impositivo, até pelas razões apresentadas no item 1.

2. O 2º turno das eleições presidenciais, a ser realizado no dia 31 próximo, coloca em confronto dois projetos com muitos pontos de aproximação: o representado por Dilma (PT/PMDB e aliados) e o representando por Serra (PSDB/DEM e aliados).

3. As classes dominantes no Brasil – que exercem sua hegemonia nos planos econômico, político e de produção do imaginário social – não se sentem incomodadas por nenhum dos dois, mas preferem, clara e reiteradamente, o retorno do controle demotucano: a elas interessa mais o Estado mínimo e a privatização máxima da Era FHC do que a despolitização máxima e o Estado minimamente regulador do lulismo.

4. PSDB e DEM – para além da campanha ‘medieval’ coordenada pelo vice de Serra, que anuncia o ‘fim da liberdade de culto’ com a vitória da ‘terrorista’ candidata petista – reprimem abertamente movimentos populares e não aceitam política externa que saia dos marcos do Império. Todo o setor de oligarquias patrimonialistas ou ‘neopentescostais’ que hoje gravita em torno de Lula rapidamente se bandeará para o lado de um eventual governo Serra, assim como os banqueiros, apesar de seus lucros extraordinários e inéditos no período recente. Serra presidente é o ‘sonho de consumo político’ do conservadorismo total, uma de suas principais bases de sustentação.

5. Por tudo isso, a indicação do voto crítico em Dilma como a opção que o PSOL valoriza, respeitando porém aqueles que não quiserem ir além do “Serra não”, e afirmando desde já nossa forte cobrança programática* sobre o futuro governo nacional, qualquer que ele seja, parece a mais razoável neste momento.

* Reforma Política com participação popular, auditoria da dívida, reforma agrária, reforma urbana, 10% do PIB na Educação, mais recursos para a saúde, forte combate à corrupção, garantia e ampliação dos direitos trabalhistas, política ambiental questionadora de transgênicos, da privatização da gestão de florestas, de Belo Monte, da transposição do São Francisco etc.

Assinam: Chico Alencar, Jean Wyllys, Ivan Valente, Randolfe Rodrigues, Marcelo Freixo, Milton Temer, Eliomar Coelho, Jefferson Moura, Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder, José Luiz Fevereiro, Rodrigo Pereira, Miguel Carvalho e Edson Miagusko.


Por "falta de identidade", Heloísa Helena se afasta da presidência do PSOL [leia a íntegra do comunicado]

1. Agradeço a solidariedade de muitos diante da minha derrota ao Senado (escrevo na primeira pessoa pois sei, como em outras guerras ao longo da história já foi dito "A vitória tem muitos pais e mães, a derrota é orfã!").

Registro que enfrentei o mais sórdido conluio entre os que vivem nos esgotos do Palácio do Planalto - ostentando vulgarmente riquezas roubadas e poder - e a podridão criminosa da política alagoana. Sobre esse doloroso processo só me resta ostentar orgulhosamente as cicatrizes, os belos sinais sagrados dos que estiveram no campo de batalha sem conluio, sem covardia, sem rendição!

2. Comunico à Direção Nacional e Militância do PSOL a minha decisão de formalizar o que de fato já é uma realidade há meses, diante das alterações estatutárias promovidas pela maioria do DN me afastando das atribuições da Presidência. Como é de conhecimento de todas(os) fui eleita no II Congresso Nacional por uma Chapa Minoritária, composta majoritariamente pelo MES e Poder Popular (MTL), em um momento da vida partidária extremamente tumultuado que mais parecia a velha e cruel opção metodológica das lutas internas pelo aparato diante dos escombros de miserabilidade e indigência da nossa Classe Trabalhadora. Daí em diante o aprofundamento da desprezível carnificina política foi ora transparente ora dissimulado mas absolutamente claro!

Assim sendo, em respeito à nossa Militância e aos muitos Dirigentes que tanto admiro e por total falta de identidade com as posições assumidas nos últimos meses pela maioria das Instâncias Nacionais (culminando com o apoio a Candidatura de Dilma!) tenho clareza que melhor será para a organização e estruturação do Partido o meu afastamento e a minha permanência como Militante Fundadora do PSOL, sempre à disposição das nobres tarefas de organização das lutas do nosso querido povo brasileiro! Avante Camaradas!

Maceió, 19 de Outubro de 2010

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Para ajudar a amadurecer o debate sobre o 2º turno


Dois pesos...




Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos.


por Maria Rita Kehl, em "O Estado de S. Paulo" (via Portal Vermelho)


Este jornal [Estadão] teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.


Maria Rita Kehl é psicanalista, apoiadora do deputado federal reeleito por São Paulo Ivan Valente e militante contra o retrocesso representado pela direita conservadora do país (nota minha, antes que alguém pense que isso saiu no Estadão ou no Vermelho).

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Desempenho dos partidos no Congresso (ou o orgulho de votar no PSOL)

Os partidos com as melhores bancadas do Congresso

Bancadas de esquerda e centro-esquerda se destacam. PT e PSDB receberam mais votos dos jornalistas. Proporcionalmente, os melhores índices são do PSOL e do PCdoB

Sylvio Costa e Edson Sardinha


As listas dos parlamentares votados pelos jornalistas, na primeira fase do Prêmio Congresso em Foco 2009, permite uma grande variedade de leituras sobre o prestígio das 19 bancadas partidárias em atividade no Parlamento.

Considerando o total de votos computados, o PT emerge da pesquisa como a legenda com a atuação parlamentar mais bem avaliada pelos jornalistas que cobrem o Congresso Nacional. Os 176 jornalistas consultados, ligados a 49 veículos de comunicação, deram 346 votos a parlamentares do partido. O PSDB ficou em segundo lugar, com 274 votos.

Proporcionalmente, PSOL e PT foram as bancadas mais bem avaliadas. A primeira teve todos os seus quatro parlamentares (um senador e três deputados) citados pelos jornalistas. A segunda, metade de seus 90 integrantes. O mesmo ocorreu com o PHS, que teve um de seus dois representantes lembrado na votação. O PSB e o PCdoB também se destacaram com quase metade da bancada votada.

PSDB e PDT vieram em seguida, respectivamente, com 43,05% e 32,14% dos integrantes de suas bancadas destacados pelos profissionais de comunicação.

Mas os resultados permitem uma análise que vai além do aspecto meramente partidário para entrar também no campo ideológico. É uma área nebulosa, sabemos bem.

De qualquer maneira, admitindo como...

partidos de esquerda ou de centro-esquerda PT, PSB, PDT, PCdoB, PSOL, PV e PPS;

partidos de direita ou de centro-direita DEM, PP, PTB, PR, PHS e PSC; e

partidos de centro PMDB, PSDB e PRB,

chegamos à conclusão de que a esquerda e a centro-esquerda têm as bancadas mais bem avaliadas pelos jornalistas políticos de Brasília.

Os números: a esquerda e a centro-esquerda tiveram 86 (44,55%) de seus 193 congressistas citados pelos jornalistas; os partidos conservadores – de direita ou centro-direita – receberam citações para 39 (19,02%) de seus 203 representantes no Congresso citados; e os partidos de centro tiveram 62 (33,51%) dos 185 nomes no Parlamento citados.

Dos 19 partidos com representação no Congresso, três não tiveram nenhum parlamentar citado pelos jornalistas: PMN, PTdoB e PTC.

Abaixo, outros números interessantes sobre o perfil partidário dos parlamentares mencionados pelos jornalistas:

Deputados mencionados pelos jornalistas (total de votos por partido)

PT – 177 votos (26,22%)

PSDB – 93 (13,78%)

PSOL – 79 (11,70%)*

PSB – 76 (11,26%)

PMDB – 58 (8,59%)

PCdoB – 57 (8,44%)

PV – 48 (7,11%)

DEM – 43 (6,37%)

PDT – 15 (2,22%)

PPS – 8 (1,19%)

PR – 7 (1,04%)

PTB – 5 (0,74%)

PP – 4 (0,59%)

PSC – 4 (0,59%)

PHS – 1 (0,15%)

Senadores mencionados pelos jornalistas (total de votos por partido)

PSDB – 181 votos (19,13%)

PT – 169 (17,86%)

DEM – 159 (16,81%)

PMDB – 146 (15,43%)

PV – 89 (9,41%)

PDT – 77 (8,14%)

PSB – 54 (5,71%)

PP – 16 (1,69%)

PSOL – 15 (1,59%)**

PTB – 14 (1,48%)

PR – 14 (1,48%)

PRB – 5 (0,53%)

PCdoB – 5 (0,53%)

PSC – 2 (0,21%)

Total de votos por partido nas duas Casas do Congresso

PT – 346

PSDB – 274

PMDB – 204

DEM – 202

PV - 137

PSB – 130

PSOL – 94

PDT – 92

PCdoB – 62

PR – 21

PP – 20

PTB – 19

PPS – 8

PSC – 6

PRB – 5

PHS -1

Percentual dos integrantes de cada bancada votados pelos jornalistas

PSOL - 100%

PT - 50,00%

PHS – 50,00%

PSB - 48,38%

PCdoB - 46,15%

PSDB - 43,05%

PDT - 32,15%

PV - 28,57%

PMDB - 27,77%

PTB - 23,33%

PPS - 23,07%

DEM - 22,85%

PRB – 20,00%

PSC – 20,00%

PP – 12,5%

PR - 14,58%

* Lembrando que o PSOL tem apenas 3 deputados federais (de 513).
** Lembrando que o PSOL tem apenas 1 senador (de 81).

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

E a "desresposta" do campo majoritário da gestão

Como já era de se esperar, a parcela majoritária da gestão não respondeu as críticas colocadas em nosso texto de balanço. Recorreram aos mesmos expedientes de sempre, com os quais já estamos acostumados depois de quase um ano compartilhando dessa espinhosa estrada. As nossas ponderações foram classificadas como "picuínhas que dizem respeito somente à disputa eleitoral", ao mesmo tempo em que nós, os autores das críticas, fomos desqualificados como aqueles que estão afastados "das atividades mais cotidianas" e com "indisposição" para a unidade.

Nada mais falso. A atuação dos companheiros reproduz uma lógica produtivista, meritocrática e utilitarista de atuação no movimento. Os que "fazem" mais (eles, é claro) têm, por uma questão de "mérito", o direito de falar o que quiser. A nós é reservada uma posição passiva de inserção no grupo, quando somos um meio útil para que eles consigam atingir o fim que desejam.

Não entrarei no mérito de que fim é este, até porque respeito os companheiros do coletivo Romper o Dia!, só não abro mão do direito de expressar as minhas concepções e convicções. Fico triste apenas de ver a assinatura de pessoas independentes muito razoáveis, como é o caso do Rafael Silveira (o "Jim") e do Marcos Campos. Eles em nada têm a ver com a parcela majoritária a qual nos referimos sempre tão duramente.

Ah, uma última observação: o texto foi digitalizado porque não houve divulgação eletrônica dele, nem prévia nem posteriormente à publicação. Na verdade, a distribuição foi bastante localizada, e conseguir um exemplar foi já uma tarefa bastante árdua. Queriam fugir à documentação. Não foi possível, aí está. Divirtam-se.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Balanço crítico à atual gestão do CeUPES (escrito por parte de sua diretoria)

Adoraria poder assinar um balanço menos contundente. Mas, nas circunstâncias atuais, tenho de dizer que fomos até condescendentes demais.


A estrada que ficou para trás e a estrada que ainda temos pela frente


“Se há um caminho para o melhor, ele exige um olhar de frente para o pior." (Victor Turner)


Antes de qualquer coisa, esclarecemos que este balanço crítico não expressa a opinião da gestão A estrada vai além do que se vê do Centro Universitário de Pesquisas e Estudos Sociais (CeUPES), o centro acadêmico do curso, mas apenas a de uma parcela de seus diretores, subscritos abaixo.

Sabemos que constituir um grupo numeroso e plural para uma gestão de centro acadêmico não é tarefa fácil. É necessário disposição para o diálogo e o consenso (para dentro e fora da gestão), o que implica a todo momento não só estar disposto a convencer mas também a ser convencido. Implica saber abrir mão de certas vontades individuais ou corporativas para que prevaleça o interesse coletivo. Esse grande desafio, quando encarado verdadeiramente como algo positivo, pode trazer experiências enriquecedoras para todos.

É compreensível que durante a estrada algumas pessoas se decepcionem por um motivo ou outro, com maior ou menor intensidade. Essa decepção pode ser com a própria posição ou com os rumos que a gestão toma. Quando a insatisfação diz respeito aos rumos tomados pelo grupo, é razoável que os insatisfeitos disputem esse rumo, uma vez que o percebem incoerente com aquilo que o próprio grupo defendia anteriormente.

Os diretores do CeUPES que assinam este texto compartilham de algumas insatisfações e têm, ao longo desta gestão, disputado os seus rumos, da maneira como lhes tem sido possível. Acreditamos que um balanço sério e honesto da gestão a ser apresentado aos estudantes do curso só pode ser feito a partir de nossa carta-programa e dos compromissos que levaram A estrada vai além do que se vê a ser eleita pela maioria dos estudantes, nos dando assim a legitimidade que sempre reivindicamos. Para nós, no entanto, essa legitimidade não é um cheque em branco, mas um compromisso calcado em bases bastante objetivas e de conhecimento público.

Muito do que consta dessas bases objetivas não foi alcançado e nós não podemos nos furtar da autocrítica, afinal só identificando e reconhecendo os erros cometidos e os motivos pelos quais eles ocorreram é que podemos amadurecer o nosso projeto coletivo e reorientá-lo naquilo em que ele estiver equivocado. Não podemos aceitar como natural que se abra um abismo entre o discurso de campanha e a prática enquanto gestão.

Defendemos a carta-programa que nos elegeu quando ela diz que é preciso “construir não apenas para, mas com todos os estudantes”. Apesar de ter sido um evento relativamente bem-sucedido, a Semana de Ciências Sociais (SeCS), por exemplo, foi construída de modo fechado, inclusive no que diz respeito aos próprios membros da gestão. Em nossa carta-programa, dizíamos que queríamos construí-la de forma ampla, “como um espaço no qual a participação de todos é realmente efetiva, tanto na realização quanto na organização da Semana”. O cumprimento do prometido, além de ser uma obrigação, teria evitado que interesses privados se sobrepusessem aos anseios, sequer escutados, do conjunto dos estudantes.

Outra proposta abandonada foi a de “inclusão do período noturno na dinâmica do curso”. Não houve discussão ou atividade alguma voltada a esse público. Ao contrário, mesmo dentro da gestão esse foi o público mais penalizado por sua ausência na dinâmica do movimento estudantil. A superação da “divisão entre estudantes militantes e estudantes de sala de aula”, outro de nossos compromissos, não pode ser concretizado sem que se tenha uma política efetiva para a inclusão dos estudantes do período noturno, em especial daqueles que trabalham ou têm outras responsabilidades fora dos muros do mundo encantado da USP.

Poderíamos tranquilamente listar uma série de outras promessas não-cumpridas, como a manutenção e ampliação de diversas atividades (Café com CeUPES, grupos de trabalho e discussão temáticos, as semanas temáticas, com exceção da Semana de Mulheres, que aconteceu e contou com abertura e diversidade consideráveis) e a política de comunicação, em que os estudantes não só receberiam as informações, mas também as produziriam. A única tentativa de produção coletiva de alguma coisa foi tirada a contragosto na única assembléia ocorrida neste ano no curso, a saber, um boletim a ser elaborado em uma comissão editorial aberta. Até hoje, embora textos tenham sido entregues, nada foi publicado. Sem contar o questionável processo de eleição para representantes discentes (RDs).

Nossa crítica, entretanto, não se pauta de forma irresponsável e irrestrita, ao que sabemos reconhecer avanços conquistados em determinados espaços, como o Escritório Piloto, que se tornou o NAE (Núcleo de Apoio à Extensão). Ele sugere uma maneira interessante de trabalhar com a inserção do cientista social na sociedade, a partir de uma visão de mundo pautada pela troca horizontal, e não a serviço de interesses unilaterais do mercado. Acreditamos, no entanto, que grande parte dos seus avanços se deve à postura de independência organizacional com relação à gestão como um todo.

Os compromissos que firmamos estão todos de acordo com a nossa concepção de movimento estudantil e aquilo que de fato esperamos de uma gestão de centro acadêmico. A atuação da gestão é o que tem destoado, e isso não podemos aceitar calados, pois assim estaríamos sendo cúmplices. É justamente por discordar do balanço oficial da atual gestão que tornamos públicas as nossas divergências e o caráter heterogêneo da composição da gestão A estrada vai além do que se vê.

Não temos aqui o interesse de lavar roupa suja ou desconstruir a unidade dos setores progressistas e consequentes do movimento estudantil, mas em nosso entendimento a gestão avançou muito pouco na concretização de suas propostas, e isso não pode ser escondido dos estudantes, em especial daqueles que, por estarem no primeiro ano, desconhecem o processo e o compromisso político que nos elegeram.

A defesa de um movimento estudantil verdadeiramente amplo e democrático foi deixada de lado e substituída por um modelo que consolida um distanciamento entre centro acadêmico e estudantes, em que a relação entre estes se dá de forma vertical, uma vez que se pratica a concepção de que os militantes sabem o caminho que deve ser trilhado pelos demais estudantes. Não entendemos que estar próximo aos estudantes signifique apenas passar recados em salas ou por meios digitais, mas sim a construção de espaços em que os estudantes não sejam apenas receptores de informação, mas participem da formulação conjunta das atividades.

Durante a estrada, abrimos mão de muitas coisas por aceitar a derrota nas discussões internas, pois sabemos que democracia não é apenas uma palavra bonita para ser utilizada quando se tem a certeza da vitória. Opiniões diversas ao longo desta gestão foram tratadas como bobagem (em manifestações literais), desconfiança ou interesses direcionados de grupos políticos (ainda que parte de nós não seja de corrente política nenhuma). Esse tipo de posicionamento nos torna bastante desesperançosos com relação à atual gestão e seguros de que a inviabilização do cumprimento de nossas propostas se deve em grande medida à falta de vontade política nesse sentido por parte da parcela majoritária da gestão.

Essa parcela majoritária já iniciou seu processo de formação de chapa para as próximas eleições e tem como público-alvo prioritário os estudantes do primeiro ano (repetindo a tática dos anos anteriores). Entendemos que é fundamental agregar esses estudantes dentro dos debates políticos que se dão em nosso curso, mas precisamos fazê-lo de forma contínua, para que a aproximação com o centro acadêmico não se dê apenas durante os preparativos para as eleições, mas durante todo o período de gestão. Precisamos ser democráticos não apenas na forma e no discurso, mas sobretudo nas nossas ações cotidianas.

Por fim, esclarecemos que não estamos rompendo com a atual gestão, por estarmos certos de que a defesa de nosso programa é a forma mais responsável e consequente de defender aqueles que confiaram em nós e em nossas propostas. Seguiremos lutando para que “todos os estudantes tenham o direito de expor sua opinião” em espaços abertos promovidos pelo centro acadêmico, sejam eles assembléias, plenárias, reuniões da entidade etc.

É importante que você, estudante de Ciências Sociais da USP, saiba que, para nós, as propostas da chapa A estrada vai além do que se vê nunca foram da boca para fora.

Assinam: Erika Ferreira de Lima, Fernanda Ortega, Gabriel Neves, Maraiza Adami e Max Gimenes

domingo, 29 de agosto de 2010

O "caráter errático" da campanha tucana




Para arrematar, deixo aqui as palavras do ex-tucano Vladimir Safatle, professor do departamento de Filosofia da USP, em artigo recente publicado na Folha:

"Nesse sentido, o caráter errático de sua campanha [do PSDB] não é apenas um traço de seu caráter ou um problema de cálculo de marketing. Trata-se do capítulo final da dissolução ideológica de uma sigla que só teria alguma chance se tivesse ensaiado algo que o PS francês tenta hoje: reorientação programática a partir de um discurso mais voltado à esquerda e (algo que nunca um tucano terá a coragem de fazer) autocrítica em relação a erros do passado."

Pois é. Sabemos que o "caráter errático" de que fala o professor nada tem a ver com os cacófatos do "Serra comedor". Trata-se apenas de uma engraçada coincidência.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Debate Folha/UOL: o dito e o não dito

Como assinante da Folha, eu havia me inscrito para assistir, da plateia, o debate entre os três presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas. A minha intenção era fazer uma cobertura crítica do evento, que por critérios arbitrários dos organizadores ocorreria sem o candidato Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL.

O texto que eu pretendia escrever eu sequer terminei, porque um fato inesperado mudou tudo e tirou a minha atenção.

Fui convidado para um entrevista e aceitei. Pensei que era para a Folha. Depois descobri que gravariam um vídeo para o UOL. Tudo bem, sem problemas. Mas... surpresa: a pouquíssimos minutos de acabar o bloco do momento, o repórter @msneves me disse que entraríamos ao vivo naquele intervalo. Eu, que estava tentando imaginar o que diria, fiquei completamente sem reação. Mas não deixei de encarar as câmeras para falar da ausência de Plínio. As coisas saíram muito diferente do que eu gostaria, porém é tarde demais para chorar o leite derramado. Logo após a entrevista, no entanto, eu já havia esboçado na minha cabeça o que eu deveria ter dito (abaixo). Afinal, eu tinha mais de 140 caracteres. E poderia ter ido muito além.

"É impossível comentar a repercussão do debate na internet e, em especial, no Twitter sem citar a frustração geral que ocasionou a não-participação do candidato Plínio de Arruda Sampaio. A Marina, provavelmente alertada por seus assessores, resolveu sair da defensiva e ocupou o 'vácuo crítico' deixado por Plínio. Não sem surpresa foi parar na lista dos 'trending topics' mundiais do Twitter. Até o FHC foi parar nos TTs, enquanto o Serra, coitado, nem apareceu. A propósito, se o debate da Folha fosse utilizar a lista de tópicos mais comentados do Twitter como critério para convidar os candidatos, certamente os três presentes seriam Marina, Dilma e Plínio. Quem ficaria de fora seria o Serra. Mas, de qualquer forma, o debate foi acompanhado por todos os internautas, inclusive pelo candidato Plínio, que comentou por meio de webcam. E, ao contrário do que disse Fernando Rodrigues, o tag #debatefolhauol chegou a ocupar por bastante tempo o terceiro lugar na lista de TTs. Se chegou a ficar em primeiro, foi apenas durante um piscar de olhos. No topo, estava a Marina. E seria o Plínio caso ele estivesse participando."

Ah, se eu pudesse voltar no tempo...

Não posso. E a vida continua. Ainda há muito por fazer.

sábado, 14 de agosto de 2010

Quando a esmola é demais, o santo desconfia

A Folha deixou de ignorar o candidato do PSOL à Presidência da República, Plínio de Arruda Sampaio, e lhe destinou quase uma página inteira pelo segundo dia seguido. Achou democrático? Então preste atenção aos detalhes:

Imagine a forma mais imprudente de abordar tudo o que pode haver de mais polêmico com relação a uma candidatura. Imagine a publicação, sem o devido aprofundamento das discussões, de tudo o que pode chocar o senso comum. Pronto, você imaginou a matéria da Folha de hoje (a de ontem havia sido bem mais condescendente, digamos assim). O título já escancara que Plínio defende a "legalização da maconha". No subtítulo, aspas de Plínio perguntando que "mal faz um baseado". Depois, o jornal joga na roda a contradição entre a posição de Plínio contra a existência do Senado e a suposta bronca que o PSOL lhe teria dado pelo fato de o partido lançar postulantes ao cargo. Para arrematar, uma "investigação" que revelaria uma suposta incoerência existente no fato de um socialista defender a taxação de grandes fotunas e ao mesmo tempo ter patrimônio de cerca de R$ 2 milhões. Eles gostam de endinheirados como Eike Batista, que quanto mais tem mais quer, independentemente de qualquer coisa. (Neste caso, de qualquer coisa mesmo.)

A imprensa não é neutra, sabe-se. Mas alguns veículos são tendenciosos demais.

(Ah, em tempo: na edição de hoje da Folha também havia um editorial contra o debate eleitoral centrado na comparação entre os governos Lula e FHC. É claro, não há modo melhor de mostrar que o governo Lula, por menos que tenha feito, saiu-se muito melhor que o tucanato privatista. O pessoal desse jornal não diz, mas vota 45. Ah, vota...)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Preciso ler Guimarães Rosa


Na edição especial de número 600 da revista CartaCapital, várias personalidades foram convidadas a responder à seguinte pergunta: "Do que o Brasil precisa?".

As respostas foram as mais variadas, de acordo com a área de atuação e a visão de mundo da pessoa em questão. Entre um Stedile aqui, um Belluzo ali e um Sócrates acolá, surpreendido mesmo eu fui com o texto de Jorge Futado, cineasta e roteirista.

O texto de Furtado carrega o seguinte título: "Ler Guimarães Rosa (e outras dez sugestões para fazer deste um país melhor para nós e os nossos filhos)". Instigante. E mais instigante ainda é o trecho citado do livro Grande Sertão: Veredas, do qual reproduzo uma parte abaixo.

"Por que o governo não cuida? Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil e tantas misérias... Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons...”

Política de verdade é assim. Não basta ideias arranjadas, infelizmente (ou felizmente, sei lá). O buraco é bem mais embaixo. E Guimarães Rosa, pelo visto, ajuda a iluminar tão tortuosa trilha. Preciso lê-lo urgentemente.

domingo, 25 de outubro de 2009

Manifesto em defesa do MST

Não é de hoje que a mídia brasileira, aquela que defende os interesses espúrios do agronegócio como se fossem estes os interesses do conjunto da nação, estrebucha quando o MST faz o que quer que seja.

Portanto, não deveria me espantar a parcialidade com que o episódio da derrubada dos pés de laranja foi tratado. Interessante foi observar a cobertura da Folha de S.Paulo, que no domingo seguinte traçou um elogioso perfil de Eike Batista, homem mais rico do Brasil e notório investigado por fraudes em licitações públicas (o que talvez não seja mera coincidência).

Perplexo, perguntei aos meus igualmente perplexos botões: Até quando aqueles que defendem o patrimônio público destinado ao bem-estar coletivo vão ser tratados como bandidos? E até quando aqueles que enriquecem à custa do Estado e da apropriação privada dos bens públicos vão ser tratados como heróis?

Por todos que se importam mais com vidas humanas do que com pés de laranja plantados em terras sob suspeita de irregularidades, desejo que um dia se faça justiça neste país. E que nesse dia os cidadãos brasileiros saibam escolher de que lado estar. Enquanto esse dia não chega, compartilho o manifesto abaixo, uma necessária luz para iluminar este período de trevas em que parecemos estar mergulhados.




Contra a violência do agronegócio e a criminalização das lutas sociais

As grandes redes de televisão repetiram à exaustão, há algumas semanas, imagens da ocupação realizada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em terras que seriam de propriedade do Sucocítrico Cutrale, no interior de São Paulo. A mídia foi taxativa em classificar a derrubada de alguns pés de laranja como ato de vandalismo.

Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra e pela Justiça. Trata-se de uma grande área chamada Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares. Desses 30 mil hectares, 10 mil são terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas e 15 mil são terras improdutivas. Ao mesmo tempo, não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra.

Na ótica dos setores dominantes, pés de laranja arrancados em protesto representam uma imagem mais chocante do que as famílias que vivem em acampamentos precários desejando produzir alimentos.

Bloquear a reforma agrária

Há um objetivo preciso nisso tudo: impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola – cuja versão em vigor tem como base o censo agropecuário de 1975 – e viabilizar uma CPI sobre o MST. Com tal postura, o foco do debate agrário desloca-se dos responsáveis pela desigualdade e concentração para criminalizar os que lutam pelo direito do povo. A revisão dos índices evidenciaria que, apesar de todo o avanço técnico, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam e estaria, assim, disponível para a reforma agrária.

Para mascarar tal fato, está em curso um grande operativo político das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST. Deste modo, prepara-se o terreno para mais uma ofensiva contra os direitos sociais da maioria da população brasileira.

O pesado operativo midiático-empresarial visa isolar e criminalizar o movimento social e enfraquecer suas bases de apoio. Sem resistências, as corporações agrícolas tentam bloquear, ainda mais severamente, a reforma agrária e impor um modelo agroexportador predatório em termos sociais e ambientais como única alternativa para a agropecuária brasileira.

Concentração fundiária

A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, conforme o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%. As pequenas propriedades estão definhando enquanto crescem as fronteiras agrícolas do agronegócio.

Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009) os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano seguem marcando uma situação de extrema violência contra os trabalhadores rurais. Entre janeiro e julho de 2009 foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, ocorrendo um assassinato a cada 30 conflitos no primeiro semestre de 2009. Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e 6 pessoas torturadas no primeiro semestre deste ano.

Não violência

A estratégia de luta do MST sempre se caracterizou pela não violência, ainda que em um ambiente de extrema agressividade por parte dos agentes do Estado e das milícias e jagunços a serviço das corporações e do latifúndio. As ocupações objetivam pressionar os governos a realizar a reforma agrária.

É preciso uma agricultura socialmente justa, ecológica, capaz de assegurar a soberania alimentar e baseada na livre cooperação de pequenos agricultores. Isso só será conquistado com movimentos sociais fortes, apoiados pela maioria da população brasileira.

Contra a criminalização das lutas sociais

Convocamos todos os movimentos e setores comprometidos com as lutas a se engajarem em um amplo movimento contra a criminalização das lutas sociais, realizando atos e manifestações políticas que demarquem o repúdio à criminalização do MST e de todas as lutas no Brasil.


Ana Clara Ribeiro
Ana Esther Ceceña
Boaventura de Sousa Santos
Carlos Nelson Coutinho
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Claudia Santiago
Claudia Korol
Ciro Correia
Chico Alencar
Chico de Oliveira
Daniel Bensaïd
Demian Bezerra de Melo
Fernando Vieira Velloso
Eduardo Galeano
Eleuterio Prado
Emir Sader
Gaudêncio Frigotto
Gilberto Maringoni
Gilcilene Barão
Heloisa Fernandes
Isabel Monal
István Mészáros
Ivana Jinkings
José Paulo Netto
Lucia Maria Wanderley Neves
Luis Acosta
Marcelo Badaró Mattos
Marcelo Freixo
Maria Orlanda Pinassi
Marilda Iamamoto
Maurício Vieira Martins
Mauro Luis Iasi
Michael Lowy
Otilia Fiori Arantes
Paulo Arantes
Paulo Nakatani
Plínio de Arruda Sampaio
Reinaldo A. Carcanholo
Ricardo Antunes
Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira
Roberto Leher
Sara Granemann
Sergio Romagnolo
Virgínia Fontes
Vito Giannotti

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terça-feira, 25 de agosto de 2009

II Congresso Nacional do PSOL: novos tempos para um pequeno grande partido

Reproduzo abaixo a minha contribuição ao debate sobre os rumos do PSOL, ecrito antes da realização do congresso, ocorrido no último fim de semana. Os resultados ainda precisam ser digeridos. Mas uma lição ficou: se a esquerda pretende mudar o país ou o mundo, em primeiro lugar precisa mudar algumas de suas próprias práticas. Não se constrói sociedade igualitária com complexo de superioridade nem muito menos com personalismo.




PSOL: entre a disputa política moralista e a programática

O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) acaba de passar por um processo de congressos estaduais e chega agora ao seu II Congresso Nacional, a ser realizado na cidade de São Paulo nos dia 21, 22 e 23 de agosto. O que se pôde observar como divergência interna relevante até o momento foi uma diferença de análise da conjuntura e, consequentemente, das prioridades táticas e da estratégia do partido para intervir nas lutas cotidianas da população e nas eleições de 2010.

Há, por parte daqueles que defendem a preponderância da luta contra a corrupção, uma tendência a negar que exista essa polarização, colocando formalmente como eixo central a luta contra a crise econômica, mas agindo, na prática, de modo diferente. Alegam que a corrupção seria o elo frágil da cadeia, é um tema que “pega” junto ao povo, sendo capaz de ser ele o canal entre a insatisfação popular e o PSOL. Pode ser um dos canais, sem dúvida, mas há que se ter clareza sobre alguns aspectos, a começar pela ciência de que o socialismo não é uma condecoração de distinção moral ou uma criação metafísica a congregar os seres iluminados e de alguma forma superiores em seu entorno. Definitivamente, não.

É preciso entender também que o tema “pega” facilmente porque faz parte de um senso comum forjado em uma década de hegemonia neoliberal, em que o chamado “pensamento único” se impôs com força e que a única diferenciação política aparentemente possível, já que se proclamava o fim das ideologias, seria por meio da bandeira da ética na política. Bandeira esta que tem sido utilizada diligentemente pela mídia desde então para colocar todos no mesmo saco e semear o ceticismo em relação à participação político-partidária.

O Partido dos Trabalhadores (PT) assistiu ainda jovem à queda do Muro de Berlim e ao desnorteamento político que provocou o colapso do chamado “socialismo real”. O partido não resistiu à pressão e abandonou a disputa por um projeto alternativo para em seu lugar disputar a gerência do projeto dado. Passou, aos poucos, a abandonar seu plano estratégico, que atingiu a melhor formulação com o programa democrático-popular, para contentar-se com a disputa moral. Afinal, muitos foram convencidos de que o pensamento único era de fato único e que caberia aos petistas a luta pela gerência do sistema, a fim de torná-lo mais humano, o que é estruturalmente inviável.

A corrupção, entendida como apropriação de bens públicos ou de uma coletividade para uso privado ou corporativo, é inerente ao sistema capitalista, pois este tem como fundamento a busca pelo lucro. Como não há capitalismo sem lucro, e este é em última instância uma forma de corrupção aceita legalmente, não é possível criticá-la isoladamente. A corrupção é estrutural não só no Estado brasileiro mas em todo Estado capitalista. A luta contra a corrupção é tática para a denúncia do sistema vigente e gancho para proposições programáticas, que devem ser o eixo, ainda mais em um momento de crise. Um paralelo pode ser feito com a questão ambiental, que, caso não esteja vinculada à crítica ao capitalismo predatório, tende a ser uma pauta vazia ou possível de ser cooptada e ainda acabar servindo como marketing para as corporações.

A crise econômica que atravessamos, a maior desde a de 1929, é profunda e já ultrapassou os muros do cassino financeiro e chegou à economia real, causando desemprego e forçando o governo a reduzir verbas de políticas sociais para drená-las ao grande capital. É a socialização dos prejuízos em tempos de crise que se segue à privatização dos lucros em tempos de bonança. É certo que ela abre perspectivas de questionamento do regime vigente, mas é um engano crer que a crise é positiva para a esquerda e os socialistas. Não o é necessariamente, pois as mesmas chances que abre à radicalização da esquerda o faz também à direita. E, tendo em vista o atual despreparo e fragmentação da esquerda, é possível dizer que vivemos tempos perigosos. A ofensiva conservadora em defesa do capital está mais presente agora do que em tempos de estabilidade, embora cada vez mais sofisticada.

As oportunidades criadas tendem a ser aproveitadas pelos próprios defensores do capital, com o uso emprestado do ideário keynesiano, de modo provisório. É preciso entender esse tipo de intervenção como cooptação de uma doutrina econômica esgotada, como a outra face de uma mesma moeda neoliberal. Ela faz parte do ciclo dialético por meio do qual a economia capitalista se recicla. O keynesianismo como alternativa morreu, e os economistas que o defendem não são senão massa de manobra nas mãos daqueles que sairão da moita tão logo o Estado apague o incêndio provocado pela ganância capitalista – no caso, os neoliberais, ou qualquer outro nome que se venha a dar aos partidários da supremacia do mercado e da liberdade do capital.

É preciso travar a disputa programática e para este programa de ruptura disputar a consciência do povo, como um partido de massas e não vanguardista, ultrapassando a barreira do simples propagandismo e da denúncia ética para se tornar alternativa real de governo e assim avançar em uma disputa propositiva. O único formato existente hoje para a construção efetiva e conseqüente do socialismo é o de democracia popular, observadas as peculiaridades de cada tempo e de cada povo, que lute pelo fortalecimento do Estado, pela organização e mobilização popular e pela abertura e democratização das instituições, o que vem logrando êxito em países da América Latina, a exemplo de Venezuela, Bolívia e Equador.

Um partido que se proponha a ir além do que foi a experiência do PT não pode cometer os mesmo erros, ainda mais em conjuntura diferente e tão mais promissora. Para isso, é preciso fazer uma leitura correta e entender que o erro petista não foi a defesa de um programa democrático-popular para, com a combinação da disputa institucional e da mobilização popular, revolucionar o Brasil e construir o socialismo. Foi justamente o abandono deste e a capitulação à disputa política moralista. O PT no governo nos marcos da gestão burguesa do Estado é a prova de que, por mais boa vontade que porventura se possa ter, a voracidade do capital não perdoa. Ela arrasta uns e atropela outros, mas não deixa de executar seus objetivos.

Texto originalmente publicado no Correio da Cidadania, em 19 de agosto de 2009.