domingo, 29 de maio de 2011

Chega às livrarias "Matinta, o bruxo"

Por ter me envolvido a fundo no recente processo de edição desta bela obra, acredito ser eu bastante suspeito para elogiá-la, o que faz com que me limite aqui a reproduzir, a modo de registro da publicação, o texto que escrevi faz um tempo para a assim chamada "quarta capa" do livro. E o julgamento fica por conta de cada um.

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Matinta, o bruxo, segundo romance do compositor e poeta Paulo César Pinheiro, é fruto do acasalamento de duas das mais belas canções da música popular brasileira, “Matita-perê”, em parceria com Tom Jobim, e “Sagarana”, com João de Aquino.

A narrativa, do hibridismo do enredo das letras, nos leva a cruzar o batente de veredas abertas por João Guimarães Rosa, de quem Paulo César Pinheiro leu a obra ainda menino e o qual viria a se tornar uma referência notável em seu estilo, fartamente temperado com neologismos e bastante sensível ao falar popular.

Por meio do turismo forçado de João, a personagem que nestas páginas nos arrasta junto de si em sua fuga, Paulo César Pinheiro pinta um quadro intenso e expressivo, tanto da paisagem natural como da realidade social a envolver a rusticidade da vida do sertanejo.

Se muitas vezes não há quem olhe por eles, aqui há Matinta, o pássaro bruxo cujo canto místico oferece amparo e orientação até o fim.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

VII Semana de Ciências Sociais da USP



Todo mundo convidado! Para visualizar melhor a programação, clique no cartaz acima. E até lá!

domingo, 24 de abril de 2011

A cópia fiel da humanidade

Não tenho por objetivo me alongar aqui a respeito do filme "Cópia fiel", até porque costumo ser sempre bastante honesto declarando logo de cara que entendo bulhufas da (não por isso menos querida) sétima arte. A opinião abaixo, portanto, não obedece a nenhum rigor mais "técnico", digamos assim, ainda que possa ser considerada "crítica" (uma vez que a relação sociedade/cultura/arte tem recebido ultimamente grande parte da atenção dos meus estudos).

Eu poderia simplesmente dizer que "Cópia fiel" é a cópia fiel da vida de todos nós, seres necessitados que somos de fantasia, de fuga da realidade, de experimentação, de aquisição de experiências vitais sem ter necessariamente de vivê-las de modo concreto. O filme tende a causar certo incômodo, é verdade, talvez justamente por nos deixar um pouco nus, ao retirar o véu que muitas vezes deixamos cair sobre necessidades e anseios que buscamos esconder dos constrangimentos impostos pela vida em sociedade.

Afinal, quando deixamos de ser crianças, deixamos também de nos permitir certos exercícios de livre imaginação, que seriam plenamente aceitáveis antes, mas que não estão de acordo com o padrão esperado de adultos bem-resolvidos. Como refúgio a tal limitação, existem as artes, como o cinema e a literatura, nas quais porém somos geralmente influenciados a esperar personagens e situações que, embora frutos da imaginação de alguém, sigam um padrão socialmente aceitável e simplesmente satisfaçam essa nossa necessidade por realidades paralelas, e não que a representem, como faz o filme em questão.

Seja como for, o que eu queria mesmo dizer é que um gesto de ousadia faz toda a diferença.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

A imortalidade do bom poeta

Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho (1886-1968), o nosso Manuel Bandeira, teria feito 125 anos ontem, 19 de abril, caso estivesse vivo. Mas quem foi que disse que não está? Admitindo-se a imortalidade que a boa poesia pode proporcionar a seu autor, não há porque não celebrar o aniversário de Bandeira, até porque corre-se sempre o risco de que mais cento e tantos anos se passem sem que se verse com semelhante intensidade e contundência. Abaixo transcrevo (do "Testamento de Pasárgada", organizado por Ivan Junqueira) o meu poema favorito, aquele que eu invejo, aquele que eu gostaria de ter escrito, entre todos os existentes, caso fosse possível tal escolha.


Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

-- Eu faço versos como quem morre.

(Teresópolis, 1912, "As cinzas das horas")

terça-feira, 19 de abril de 2011

Theatro Municipal e o presente de grego do Kassab

No ano em que o Theatro Municipal de São Paulo completa seu centenário de construção (e 30 anos de seu tombamento pelo Condephaat), o prefeito Gilberto Kassab caprichou na surpresa. Ele vem trabalhando, desde o ano passado, num enorme presente de grego, de fazer jus apenas à etimologia de "teatro", que por acaso vem do grego. Trata-se do Projeto de Lei 01-0009/2010, que versa sobre a criação da Fundação Theatro Municipal.

Vindo do executivo, o PL visa a passar a administração do Theatro Municipal da Secretaria Municipal de Cultura para a Fundação Theatro Municipal, por meio da criação, segundo declarações da própria Secretaria no ano passado ao "Estadão", de uma Organização Social (OS), modelo que é velho conhecido como forma heterodoxa de privatização, vide OSs na área da saúde em São Paulo e suas consequências nada sedutoras -- prestação de serviços ruim e falta de transparência no gerenciamento de recursos públicos.

A íntegra do PL pode ser acessada no site da própria Câmara Municipal: http://www.camara.sp.gov.br/index.php?option=com_wrapper&view=wrapper&Itemid=36. A votação estava prevista para quarta-feira passada, mas acabou adiada para a próxima, dia 20/4. Com isso, estudantes da Escola Municipal de Música (EMM) ganharam tempo para se mobilizar e já preparam uma manifestação para o mesmo dia, com concentração às 15h, na própria Câmara, contra o que consideram a privatização do Theatro e a mercantilização da cultura na cidade.

sábado, 19 de março de 2011

Texto sobre o Equador na Caros Amigos deste mês

Na edição de março da revista "Caros Amigos", além das reportagens, colunas e entrevistas legais de sempre, há uma matéria que escrevi sobre o Equador, país em que estive no ano passado e sobre o qual venho pesquisando ultimamente.

Abaixo, para que fiquem com água na boca, reproduzo o trecho publicado no site da revista (www.carosamigos.terra.com.br). Espero que tenham curiosidade de conferir a íntegra do texto, disponível na edição impressa que já está nas bancas.




Revolução Cidadã em marcha no Equador

A tentativa frustrada de golpe de Estado, há seis meses, não desgastou o governo de Rafael Correa nem contribuiu para a oposição acumular forças


Ao dar o nó na discreta gravata azul-clara que vestiu na manhã ensolarada da quinta-feira 30 de setembro de 2010, o presidente equatoriano, Rafael Correa, provavelmente não imaginava o que aquele dia lhe reservava: o momento mais tenso desde sua primeira posse, em janeiro de 2007. O dia em que a continuidade tanto de seu mandato como de sua vida foram seriamente colocadas em xeque.

No Equador, a instabilidade é velha conhecida: os três presidentes eleitos que precederam Correa foram depostos antes do término do mandato e só no século passado vigoraram sete Constituições diferentes. Por isso, há quem diga, como o Centro Andino de Estudos Estratégicos (CENAE), que a cultura política do país reza, para a resolução de problemas, pela busca do centro da tomada de decisões, no caso, a própria presidência. “Atores relevantes” não aceitariam os “canais institucionais”.

Talvez por isso Correa tenha sido levado, naquela manhã, a discursar a um grupo de policiais sublevados contrários à Lei Orgânica do Serviço Público implementada por seu governo. Frente à impassibilidade dos manifestantes, o presidente afrouxou o nó que dera para prender a gravata, enquanto bradava: “Se querem matar o presidente, aqui está, matem-me”. Depois de afirmar que não daria “nenhum passo atrás”, deixou o palanque improvisado, e não tardaria até ter lugar a cilada que o levaria ao hospital policial em que foi mantido por horas como refém.

A ousadia não surpreende quem acompanhou a ascensão do líder da Aliança País (AP) ao poder. Rafael Correa foi lançado candidato com a promessa de convocar uma Assembleia Constituinte, o que implicaria a dissolução do Congresso. Como garantia do compromisso, a AP se arriscou ao boicote das eleições legislativas, não lançando candidatos. Com a taxa de reprovação dos congressistas em 90% da população, de acordo com pesquisas realizadas às vésperas do pleito, o professor de economia, que não tinha histórico de militância partidária, mas sim no cristianismo progressista, capitalizou a insatisfação popular e iniciou a condução do processo de transformações ao qual daria o nome de Revolução Cidadã.