segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Educação para libertação

Recentemente, encontrei com meu primo Douglas, um pouco mais velho e um tanto distante (mora em Indaiatuba, interior de São Paulo). Enfim, nunca fomos de conversar muito, mas nesse último encontro as coisas mudaram um pouco. Conhecido na família por minha militância política, costumo ser convidado a opinar a respeito de alguns assuntos. (Às vezes sou chamado simplesmente para ouvir desbafos, tudo bem, não importa, me sinto contente do mesmo jeito.) O que importa nesse caso é que conversamos brevemente sobre educação - mais precisamente sobre a visão da revista (revista?) "Veja" sobre o assunto.

O resultado desse bate-papo foi a volta à ativa deste humilde articulista às páginas do portal de mídia alternativa Correio da Cidadania. Aliás, escrever para lá é uma das coisas que mais me fazem feliz. Douglas, obrigado. "Correio", obrigado. E (por que não?) "Veja", obrigado. A revolta que sinto pelos absurdos publicados por vocês são um excelente combustível para mim, faz com que eu escreva com vontade e determinação.

Eis o link:

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A educação de "Veja": o Brasil de resignados que não queremos ser

Em recente encontro com um parente atualmente um pouco distante, surgiu uma conversa sobre educação que me trouxe uma salutar reflexão. O querido primo, leitor de "Veja", defendeu a concepção da revista sobre o tema, cuja última exposição foi feita na edição de 3/9/08 por Gustavo Ioschpe, economista supostamente especialista em educação e um dos arautos da direita raivosa que, embora caricata, representa um enorme perigo pelo esforço incansável de sempre para transformar mentiras em verdades e para vender gatos como se velozes lebres fossem (com certeza, aulas com Goebbels, ministro da propaganda de Adolf, ele mesmo, o Hitler).

Nos textos de "Veja", que não é imparcial como se auto-declara – isenção, aliás, inexistente em tudo que sai de um ser humano dotado de experiências e valores –, não há sequer responsabilidade, que é o mínimo que se espera não só de um jornalista como também de todos os outros profissionais deste mundo. Seria passível de respeito a teoria defendida pelo periódico caso não fosse manifesta a sua falta de interesse por um país melhor (entenda-se melhor para a maioria). O tal Brasil que eles querem que sejamos é ainda pior do que esse em que já vivemos. Ainda mais injusto e desigual. Para eles, afinal, a desigualdade se resume à excessiva capacidade de alguns ante a incompetência da grande maioria. Tal raciocínio, ao contrário do que possa parecer, é mais fruto de má-fé que de ignorância. Vejamos.

"Veja" utiliza uma premissa válida para chegar a uma conclusão – premeditada – absolutamente equivocada e ameaçadora à educação brasileira. É preciso, segundo a revista e aqueles que lá manifestam o seu ódio à fraternidade e à solidariedade, que a educação seja eficiente e ofereça resultados. Como todos os seres humanos dotados de ao menos dois neurônios, concordo. E é daí que se chega a uma conclusão surpreendentemente mágica: para que se alcancem bons resultados, basta que as escolas sejam administradas como empresas privadas. Respiremos fundo.

A educação deve, sim, funcionar com o objetivo de oferecer bons resultados. Mas o questionamento que deve ser trazido para reflexão – atitude pouco incentivada por "Veja" – é o seguinte: que resultados as instituições de ensino devem proporcionar? Eis o ponto: as escolas não podem ser administradas como se fossem empresas privadas, pois os resultados buscados nestas são os lucros de uns poucos à custa do trabalho de tantos outros. Uma educação de qualidade deve objetivar a construção de uma sociedade justa e harmoniosa, onde exatamente não funcione a lógica capitalista de competição predatória e concentração de privilégios nas mãos de uma pequena elite, não raro ignorante, egoísta e perceptivelmente não merecedora da posição que ocupa, ela mesma prova incontestável da farsa da chamada "meritocracia".

Professores, os profissionais mais importantes para que os resultados acima sejam atingidos, não podem ter seus empregos, salários e motivação submetidos ao que o "deus mercado", seguindo leis ininteligíveis, queira oferecer. É preciso, antes de tudo, que eles sejam valorizados. Ao contrário do que faz a revista, que os ataca, ofende ou menospreza. E as determinações do mercado nem sempre são as melhores para a sustentabilidade do planeta e para o equilíbrio da vida em sociedade. O meio ambiente que o diga.

Um programa educacional decente deve buscar a democratização absoluta do conhecimento e do acesso à cultura, para a formação de cidadãos conscientes e críticos, capazes de utilizar o saber para a transformação da realidade que os cerca. Assim nos ensinou o revolucionário pedagogo Paulo Freire, o educador brasileiro mais conhecido e respeitado no mundo – desdenhado, é claro, pelo panfleto travestido de revista. Esse tipo de eficiência e resultado não pode ser mensurado em balanços, provas de múltipla escolha ou outros documentos estritamente técnicos. É uma questão sobretudo humana, que até algumas nações capitalistas parecem perceber.

Não é à toa que a educação de países tidos como exemplares seja encarada como serviço público. Sem lógica empresarial, mas como investimento social. Não é por acaso também que a educação aqui seja uma vergonhosa calamidade. São os ignorantes e alienados formados por nossas escolas que sustentam no poder quem rouba (mas diz que faz) e quem promete mundos e fundos, mas não faz nada além do que sempre foi, ou deixou de ser, feito.

Educação não é e não pode ser, em hipótese alguma, tratada como mercadoria. Ela é um instrumento de libertação, é emancipação. Como tal – e somente como tal –, ela pode ser capaz de nos garantir a perspectiva de um futuro digno da capacidade inesgotável do ser humano, que vai muito além da aptidão de alguns para falar abobrinhas.

domingo, 26 de outubro de 2008

Resultado da enquete

Encerrada no dia 30 de abril (sim, faz tempo), a primeira enquete realizada por este blog perguntou ao querido leitor: O que você acha do fechamento de quatro bibliotecas públicas pela Prefeitura da Cidade de São Paulo?
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____________________ 50%
Fecharam quatro blibliotecas? "Demos" filhos da...

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________ 20%
Ah, temos que agradecer a Deus por terem fechado só quatro... o Kassab seria capaz de fechar muito mais...

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________ 20%
É a cidade limpa, pô! Livro nas estantes é poluição visual...
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____ 10%
Está certo... ler pra quê? Isso é coisa de quem não tem o que fazer!

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PS: Aproveito para expressar aqui a minha indignação com relação à vitória de Kassab nessa eleição municipal. Não que a Marta seja grande coisa, no fundo os projetos mais se assemelham do que se diferenciam, mas um está ligado ao Maluf, ao Pitta e à ditadura militar, e seu partido, o DEM (ex-PFL), representa o que há de mais retrógrado na política brasileira...

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O que fazer no dia 5 de outubro?

Quatro minutos que podem valer quatro anos

O título deste texto, se associado às freqüentes propagandas da Justiça Eleitoral para que os brasileiros entendam a importância do voto, pode dar a idéia de que o assunto aqui abordado será política. Mais precisamente, as eleições do próximo dia 5 de outubro. E é isso mesmo. Mas, antes de abandonar a leitura, volte ao título: são quatro míseros minutos que podem valer quatro longos anos. Ou até mesmo muito mais. Acredite, vale a pena ir até o fim.

Poderia dizer que este é um manifesto de declaração de apoio a uma determinada candidatura. Mas não é só isso. É uma carta aberta a todos os amigos, parentes, conhecidos e também desconhecidos. É um pedido para que utilizemos este momento que antecede as eleições para reflexão. É um chamado ao voto consciente. Já estou cansado – e espero do fundo do coração não ser o único – a acompanhar a promiscuidade que impera no cenário político nacional. De mensaleiros e sanguessugas a defensores de corruptos, como Daniel Dantas, e de latifundiários que utilizam mão-de-obra escrava ou semi-escrava e destroem o meio-ambiente. Não estou aqui para defender a política como hoje ela funciona, é bom deixar claro, nem os políticos que aí estão. Muito pelo contrário, repudio-os em sua grande maioria como quase todo mundo.

Como membro militante do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), acredito na política como meio de transformação da realidade – para melhor, sempre. Para que vivamos em uma sociedade em que as pessoas tenham acesso a condições dignas de vida e cooperem umas com as outras, é necessário que nos organizemos em torno de um projeto alternativo, diferente daquele que é adotado hoje por aqueles que estão no poder e não nos representam. Para tanto, é necessário que estejamos ligados ao que acontece na vida política, que participemos ativamente dos acontecimentos da vida pública. E, mais importante nesse momento, é preciso que apoiemos alguém de nossa confiança para substituir os parasitas que infestam os nossos parlamentos e sugam o dinheiro público, justamente aquele que deveria ir para hospitais, escolas e creches – o que todos prometem, da boca para fora, melhorar. É macabro, mas existem pessoas capazes disso e de coisas muito piores.

Os beneficiados pela atual maneira de fazer política são sempre os mesmos. Para o povo, quando muito, migalhas. Bolsas-isso e bolsas-aquilo. Mas a raiz do problema continua intacta, sem ser atacada. Candidatos, cujos partidos vieram da ditadura, se tornaram “democratas”. Há quem já foi governador e quase nada fez ou quem foi prefeita e muito mais poderia ter feito. No horário eleitoral, entretanto, são todos arcanjos dignos de receber o nosso voto. Se não vivêssemos em São Paulo, mas em outro planeta, talvez acreditássemos nas mentiras ditas a todo o momento, sem que os mentirosos sequer tremam ou fiquem vermelhos. Não estamos no Paraíso, e os que tentam nos vender essa idéia são precisamente aqueles responsáveis pelo Inferno em que se encontram o trânsito, a educação, a saúde, entre outras tantas áreas.

Não quero pedir a ninguém que simplesmente vote em candidato A ou B. É preciso entender o porquê desse voto. Eu peço licença para apresentar as candidaturas de companheiros valorosos de luta por um mundo melhor. Estou falando de Ivan Valente, deputado federal e engenheiro, que é o meu candidato a prefeito, e Gilberto Cunha, geógrafo e professor universitário, que tem o meu voto para se eleger vereador.

Ambos representam uma visão diferenciada de política, em que esta esteja a serviço da transformação das condições de vida de toda a população, e não apenas da mudança de suas próprias condições. Trata-se de um projeto construído coletivamente, por mim inclusive. Propomos, ao contrário dos demais candidatos, um projeto diferente, que inverta prioridades. Como diz Ivan Valente, a nossa cidade não precisa de um novo gerente para o mesmo projeto, mas sim de um novo projeto. E a candidatura dele é a única que se propõe a essa difícil tarefa. Para desempenhá-la, é preciso coragem, e eles a têm. Mas é preciso também consciência e participação de nossa parte como cidadãos. Esta não se resume a apertar o botão no dia da eleição, ela significa entender a necessidade de mudança, significa cobrar e fiscalizar aqueles que se dizem os nossos representantes. Significa colocar o nosso tijolo na construção do mundo que acreditamos ser o ideal para nós e para as pessoas que nos cercam.


Gilberto Cunha 50550! <http://www.gilbertopsol.com.br/>

PSOL 50, um novo partido contra a velha política!

Um abraço e um beijo a todos e todas,
Max Gimenes
Núcleo Belém/Tatuapé do PSOL

domingo, 7 de setembro de 2008

ENEM 2008 e a questão do desmatamento da Amazônia

Como eu havia prometido aos meus alunos de redação do Cursinho Popular Paulo Freire, disponibilizo abaixo a redação que fiz para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) no domingo 31 de agosto. Procurei reproduzir fielmente o meu rascunho. Por isso, peço que levem em consideração que o texto abaixo foi feito na correria e sem material para consulta. Caso eu pudesse refazê-la, mudaria alguns trechos. O texto parece grande, mas coube porque eu espremi a letra e não coloquei título propositalmente, para ganhar duas importantes linhas. Quem quiser consultar a proposta de redação pode acessar o site do ENEM (http://www.enem.inep.gov.br/). Salvem a Amazônia!

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O funcionamento da “máquina de chuvas da Amazônia”, nome atribuído à região pelo fato de a floresta ali localizada influenciar no ciclo hidrológico, corre sérios riscos. E isso pode acarretar problemas de caráter econômico e social, além dos ambientais, ao país e até a vizinhos como a Argentina, na medida em que a chuva “produzida” por ela estar diretamente ligada à geração de energia hidrelétrica e à agroindústria. Para que a tal “máquina” continue funcionando, medidas são necessárias. Como, por exemplo, o aumento da fiscalização e a aplicação de pesadas multas àqueles que promoverem desmatamentos não-autorizados.

A pura e simples proibição de todo desmatamento não surtiria efeito, pois a maior dificuldade é fiscalizar aquilo que se proíbe e algumas áreas, onde já é desenvolvida a exploração sustentável, não deveriam ser prejudicadas por conta de medidas apocalípticas. É preciso mais.

A fiscalização eficiente implicaria, a princípio, um volume considerável de investimento público, uma vez que trabalhadores seriam contratados e equipamentos, adquiridos. Porém, além dessa geração de empregos e aumento de demanda por produtos industrializados, a medida traz o benefício de se auto-sustentar a médio e longo prazos, pois a cobrança das multas seria uma fonte de recursos. Sem contar que, com a fiscalização, o fim do desmatamento seria controlado de fato, não dependendo da boa vontade de alguns setores que, por já desmatarem ilegalmente, não são dignos de confiança. Muito menos de recursos, sejam estes públicos ou advindos do exterior.

Contrastando com as grandes possibilidades, a ação também traz consigo dificuldades. Caso contrário, já haveria sido colocada em prática. A pressão de grandes detentores de poder econômico e político é certamente uma das mais importantes. A presença no Congresso, por exemplo, de bancadas ruralistas decididas a obstruir qualquer ação que interfira nos lucros de suas atividades é prova disso. Há também o risco de corrupção entre fiscais, o que deve ser enfrentado por meio de condições dignas e transparentes de trabalho.

É notório o risco que a “máquina de chuvas da Amazônia” corre. Mas a sua manutenção é possível e a ação acima proposta deixa isso claro. Não é possível ignorar o ambiente e submetê-lo a interesses econômicos privados. Por isso, é indispensável trilhar o caminho do desenvolvimento sustentável, com rigorosa fiscalização e punição exemplar a quem tentar burlar as leis.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Crônica do meu Brasil

Ah, Mariana...

Pensei bem se dois dias seriam suficientes para eu poder escrever sobre uma cidade, ainda mais se tratando de Mariana, a primeira capital de Minas Gerais, na época em que o Estado desempenhava o papel também de capital, se não política e oficial, ao menos economicamente falando. Pensei, pensei e, antes que morresse o burro, resolvi escrever. Por que não, uai? Advirto, porém, que as linhas abaixo são apenas a minha impressão. A primeira, haja vista que não tive tempo para uma observação mais acurada e, conseqüentemente, não pude amadurecer as idéias e formar uma opinião sólida.

A cidade, prima pobre da antiga Vila Rica de Albuquerque – hoje Ouro Preto, e já não tão rica assim –, é algo difícil de compreender. Com exceção da zona central, onde talvez habite a pequena elite de Mariana, o restante da cidade, visto por alguns pontos altos, parece composto de comunidades carentes espalhadas pelo morro. Não digo favela, uma vez que as construções são regularizadas e não há barracos, mas casas de alvenaria. Há uma absoluta falta de planejamento, porém, com casas com tijolos expostos ou paredes apenas com o cinza do cimento, sem acabamento... tudo parece ter surgido como surgem os trevos de três folhas nos jardins paulistas. (O de quatro folhas, aquele da sorte, nasce cada vez menos, lá e cá.)

Igrejas extravagantes não faltam, a herança histórica e artística, mais de dois séculos depois, certamente é o que torna a cidade minimamente interessante. Não tive a oportunidade de ver os famosos estudantes da região, que vivem ali devido à Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Pelo jeito simples e aparentemente ignorante de parte significativa da população, pareceu-me que as heranças do obscurantismo barroco transcendem as construções faraônicas remanescentes. Os concorrentes evangélicos, fenômeno religioso mais recente, competem com força, porém com construções menos ousadas. Ou, talvez, com construções com melhor custo-benefício – de fato, são ótimos empreendedores alguns pastores, os “neo-apóstulos” e as tais “bispas” que aterrorizam a sociedade racional. Como fenômeno arquitetônico, todavia, não merecem sequer uma linha: construções sem expressão, demasiado grosseiras, retas e secas. Sem um só vestígio de arte. Não haveria necessidade de reforma substancial para transformar o prédio do culto em casa, açougue ou farmácia.

Para ajudar na confusão que maltrata a vista, há os outdoors, que lá são permitidos. Até porque o maior usuário desse sistema de propaganda é o próprio prefeito, Celso Cotta (PMDB). Que estampa seu rosto em primeiro plano, deixando ao fundo a “percepção artística” de como ficarão suas obras quando concluídas. A obra mais importante? A construção da “Nova Prefeitura”, para que o nobre político exerça a sua função com o máximo de comodidade. Mas, ao contrário do outdoor, a obra está longe de ser concretizada. O que vale mesmo é a propaganda. Afinal, o vice-prefeito, Roque Camilo (PSDB), é candidatíssimo ao pleito municipal de outubro. Se vai ganhar? É provável. Tem a máquina estatal a seu favor e, como oposição, algumas chapas, como a do PV, a do PSOL e a de outras agremiações partidárias de menor expressão. O PT, aparentemente, inexiste. Ou se esconde.

Fernando Morais que me desculpe, mas sua cidade natal deixa muito a desejar. A comida é boa – embora coloquem batata-palha nos lanches com hambúrgueres, parece até que a descobriram recentemente – e as moças, no geral, são bonitas. Mas, de qualquer modo, eu esperava mais. Confesso, porém, que o tempo seco e a poeira de terra espalhada pelo vento atacaram meu sistema respiratório, o que possivelmente pode ter me deixado prematuramente avesso às experiências da viagem. Uma jornada de cerca de dez horas, a partir da capital paulista, capaz de nos transportar diretamente ao Século do Ouro, o XVIII, passando por ruas muito estreitas de paralelepípedos, ladeiras acentuadas e demais construções que abusam do uso de rochas, como se fossem fortalezas. Que hoje protegem apenas a importância histórica da região, tentando impedir a duras penas a decadência aparentemente inevitável de Mariana, que já foi moça e bela um dia.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Suicide Solution

Sobre seres humanos e pombos

É 12 de junho, Dia dos Namorados.
Um rapaz, em pleno meio de uma movimentada avenida, estoura seus próprios miolos.
Um fim rápido, seguro e enigmático.
Todos olham curiosos. Ninguém está nem aí.
Seu corpo tomba, e não é sobre outro corpo.
Seus lábios roçam uma superfície ardente, que não é senão o asfalto cáustico.
Um suspiro ocorre, e não é de prazer. É o último.
O sangue desliza, desvencilha-se daquele corpo já sem vida e, no calor dos acontecimentos, deixa escapar:
O rapaz matara-se por amor.
Ninguém nunca saberia, mas aquele coração que acabara de parar já batera, nos últimos tempos, o suficiente para uma vida toda.
Angústia, melancolia, desespero. Expectativa e frustração. Intensidade.
O Sol, imponente, soluçou, mas não deixou escorrer lágrima.
A Lua, orgulhosa, também engoliu o choro.
E assim o rapaz partiu: sem uma porra de um pranto.
Um casal de pombos, pousado sobre um fio de eletricidade próximo, refletiu sem no entanto entender:
Como consegue o ser humano sofrer por amor?
Os pombinhos é que estavam certos. Amavam e eram felizes
E ainda dizem por aí sermos nós os animais racionais. Bobagem.