quinta-feira, 11 de março de 2010

Se procurarem por mim, na Livraria da Vila estarei

Para o bem do suspense, não darei muitas pistas. Digo apenas que de hoje à próxima quinta-feira estarei na Livraria da Vila o dia inteiro, acompanhando a performance artística de Paula Parisot, autora do livro Gonzos e parafusos.



Para saber mais sobre o que está acontecendo aqui, acesse o blog oficial e veja mais informações!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Um miniconto que é só o começo

Posto abaixo um miniconto que publiquei no Folhateen, caderno adolescente da Folha de S.Paulo, na seção Você é o Contista. Quem for assinante do jornal ou do UOL pode acessá-lo clicando aqui.

Digo que este miniconto é só o começo porque descobri que escrevê-los (independentemente do tamanho) é uma necessidade. Quando escrevi este, estava imerso em duas leituras interessantes: Gonzos e parafusos, de Paula Parisot, e A dama do cachorrinho e outros contos, de Anton Tchekhov. Fontes de inspiração, recomendo.

Tchekhov está morto (vivo em nossos corações, ok) e, ainda que habitasse o céu, o inferno ou qualquer outro lugar, não poderia ler "Uma loucura" pelo simples fato de não dominar o idioma português (até a data de seu falecimento, ao menos). Então, fico à vontade para dedicá-lo à vivíssima e brasileiríssima Paula. Com carinho.


Uma loucura

Fernando assistia a uma aula qualquer. Sua atenção, no entanto, estava voltada ao seminário que teria de apresentar ainda naquele dia. Professora brava, matéria difícil e timidez, uma combinação perigosa e preocupante.

Estava inquieto, repassando mentalmente pela trigésima vez o roteiro da apresentação. Perdera-se por longo tempo no labirinto da própria cabeça, passeio que andava ocorrendo com alguma frequência.

De súbito, sobressaltou-se. Constrangido, espiou ao redor com cautela, à procura de qualquer indício de que seu devaneio houvesse sido notado. Envergonhado, imaginava se por acaso sua boca emitira algum som ou se movera, se sua expressão facial havia mudado bruscamente ou coisa pior.

A conversa consigo mesmo havia sido bastante acalorada, pensava se a alteração de sua respiração havia sido percebida. Como saber? Não sabia.

No fundo, a única coisa que pensava saber com certeza é que estava ficando louco. Mas, enquanto ninguém percebesse, estaria tudo bem. Afinal, um louco que é louco apenas para si mesmo não é um louco de verdade. Ao contrário, talvez seja até lúcido demais...

Guia politicamente raso da história do Brasil


Já faz mais de um mês que chegou às livrarias de todo o país o Guia politicamente incorreto da história do Brasil. Antes disso, no entanto, eu já havia tido acesso a seu conteúdo e propósitos. E por que escrevo sobre ele somente agora? Por ter terminado de ler? É claro que não, não foram todos os capítulos que li até o fim, e por falta de tempo ou de estômago nunca consegui avançar mais de três ou quatro páginas numa tacada só.

Mas asseguro que li mais do que o suficiente para escrever algumas linhas a respeito. E o faço só agora porque foi agora que o livro chegou às listas de mais vendidos dos grandes jornais e revistas brasileiros, o que de certo modo me preocupa. A despeito da riqueza da forma, o conteúdo é bastante problemático. Vejamos por quê.

"Uma pequena coletânea de pesquisas históricas sérias [...] escolhidas com o objetivo de enfurecer um bom número de cidadãos" é o que promete o autor, Leandro Narloch, ex-repórter da revista Veja – e não poderia mesmo ter saído de outro lugar. Ele se autoproclama membro do que considera a "nova historiografia que ganha força no Brasil", que vai contra o "politicamente correto". Traduzo: trata-se de uma movimentação revisionista que busca dar respaldo a uma visão elitista de mundo e que engloba do caçador de livros didáticos "hereges" Ali Kamel ao pessoal que considera branda a ditadura que neste país prendeu, torturou e matou.

A provocação do autor até funciona, quem na vida aprendeu alguma coisa sobre história não tem mesmo como não ficar furioso. O que enfurece de verdade, no entanto, não são as posições em si, frágeis, mas o modo como são apresentadas. Não vou me estender muito, deixaria isso a cargo de historiadores ou jornalistas de verdade, caso eles levassem a sério tamanha petulância. Não vão, eu sei, então faço aqui as vezes de ao menos registrar o repúdio. E o faço como estudante militante de esquerda, deixo claro, porque não pretendo me esconder atrás de falsa imparcialidade. E me defendo de antemão: apesar de comunista, não como, nunca comi e nem pretendo comer criancinhas. Nem torturar pessoas inocentes ou fazer uma revolução que institua pela força um governo tirânico no Brasil ou em qualquer outro lugar do mundo.

A minha discordância com relação à obra eu tentarei apresentar brevemente, em linhas gerais, sem chavões ou pretensão de certezas. Narloch é do tipo que acredita em verdades absolutas. Para ele, existem os fatos históricos e as distorções. Os fatos, é claro, são aqueles que ele metafisicamente reconhece como tais. E as distorções seriam obras de comunistas sedentos de poder ou de esquerdistas de qualquer espécie. O que há entre nós é uma concepção diferente da história. Expliquemos.

Nós, seres humanos, vivenciamos os fatos e, a partir dos nossos sentidos (excetuando-se o sexto deles), captamos a realidade que concretamente a eles se apresenta. Quando colhemos sensações e passamos a interpretá-las, utilizamos os instrumentos de que dispomos, nossos valores, experiências etc. Eles funcionam como filtros, que invariavelmente fazem com que ao fim tenhamos uma versão dos fatos. Não somos "puros" e esse processo de aquisição de conhecimento não poderia resultar em nada além do que mera interpretação, que pode estar mais próxima do real de acordo com a maior abundância de instrumentos que o indivíduo tenha à sua disposição, bem como a vontade de empregá-los.

Narloch, em sua cruzada contra o que chama de "historiografia militante", se esquece de que somos todos portadores de uma ideologia, sistema de idéias que serve como bússola para que o indivíduo encontre seu espaço na sociedade. Os "apolíticos" e "apartidários", conscientemente ou não, agem de forma igualmente ideológica quando atacam os adeptos declarados de um projeto político. E o autor, ainda que não seja necessariamente fascista, é um jornalista de direita, mesmo que não admita. Talvez ele diga que essa divisão não mais existe, como faz a típica nova direita brasileira, pois sabe como soa mal defender bandeiras tão retrógradas em tempos em que a humanidade dispõe de tantos recursos para viver em plenitude, harmonia e igualdade.

É verdade que, com a queda do muro de Berlim e a conseqüente dissolução da União Soviética, o senso comum da década de 1990 foi tomado pela idéia neoliberal absurda de fim da história e das ideologias, com vitória final e irreversível do capitalismo, que seria a ordem natural das coisas, contra o comunismo que atentaria contra a natureza do homem. Era a crença equivocada de que o ser humano havia deixado de ser humano. Mas, mesmo assim, a tentativa dos poderosos de contar a versão deles da história nunca vingou efetivamente no país, pois sempre contamos com a resistência de intelectuais comprometidos com uma visão que contemplasse a voz daqueles a quem é negado o direito de expressão, ainda que tivessem por isso de enfrentar os privilegiados e muitas vezes abrir mão de seus interesses individuais. Não são infalíveis, é claro, mas uma interpretação equivocada não é necessariamente fruto de má-fé. Estamos falando de humanos, e não de vilões.

Quem mandava no Brasil durante o período ditatorial ainda manda hoje, embora tenha mudado o arranjo. O regime representativo da democracia formal atualmente em vigor abre possibilidades de transformação, como a chegada de um ex-operário ao poder, mas foi o medo dos donos do poder econômico de perderem efetivamente o político que permitiu tais concessões, mas as exigiu também do lado petista. É sabido que tanto ricos como pobres, embora preservem certa margem de liberdade em suas ações, estão presos a uma estrutura social herdada de muitos anos e de muitos homens, não se trata de mocinhos ou bandidos, mas de indivíduos desempenhando determinado papel social numa sociedade desequilibrada, que condiciona o sucesso de uns à necessária desventura de outros. É o sistema capitalista competitivo que alguns consideram o melhor que o ser humano pode conceber. Sinceramente, tenho a ligeira impressão de que somos um pouco menos medíocres do que isso.

A estratégia do Narloch é bastante simples: narrar os fatos como se fossem óbvios e tratar os oponentes como se a estupidez deles fosse igualmente evidente, mesmo que para isso tenha sido obrigado a preencher lacunas com a imaginação para tornar o texto fluido e atraente. Ele abusa no uso de adjetivos, chegando ao descalabro de atribuir toda a guerra do Paraguai ao "vaidoso, cruel e louco" presidente Solano Lopez, ainda que para tanto tenha precisado desprezar todo o estudo das relações internacionais, que consideram essa forma de análise (primeiro imagem, segundo o teórico estadunidense Kenneth Waltz) insuficiente. É tão ridículo quanto atribuir a Hitler toda a culpa pelo nazismo, mas Narloch não hesitou em escrever com coragem tamanha besteira. Talvez pelo fato de a folha de papel em branco que esteve postada à sua frente, coitada, não ser dotada da capacidade de replicar.

Publicado originalmente no Correio da Cidadania, em 27 de janeiro de 2010.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Quando teremos um ano novo de verdade?

A crônica abaixo foi escrita na virada de 2007 para 2008. Começou a ser esboçada enquanto eu encarava a rodoviária do Jabaquara rumo ao Guarujá, onde passaria com familiares o réveillon. E foi terminada em janeiro, quando eu já estava novamente em São Paulo.

Na falta de algo novo para oferecer como voto de boas-festas, eu a reproduzo aqui, com ajustes, por se tratar de um texto que mantém a sua atualidade. Em março de 2008, eu a postei neste blog com o título "Será 2008 um ano novo de verdade?". Agora, creio que "Quando teremos um ano novo de verdade?" seja o título adequado, até porque, passados dois anos, de transformações profundas não vimos nem sombra.

O título em forma de interrogação não é à toa, é um convite a uma necessária reflexão. A minha resposta a ela é esta: espero tenhamos um ano novo de verdade logo, porque 2008 e 2009 deixaram muito a desejar. Somos capazes de muito mais. Com crises econômica, ambiental, energética, existencial etc., a construção de um outro mundo tem se mostrado não apenas possível como cada dia mais necessária. Mais e mais.


Quando teremos um ano novo de verdade?


Mais um fim de ano. Para mim, eles já somam 19. Dizem que agora tudo será melhor. Não acredito, tudo continua angustiantemente igual, ao passo que desalentadoramente diferente. Terminais rodoviários cheios e cabeças vazias. Como se o enorme barulho causado por conversa, criança ou pandeiro fosse capaz de nos preencher, de sufocar o silêncio constrangedor que insiste em nos lembrar, e sempre de modo inconveniente, de nossa impotência, nossos medos, nossos segredos, nossa imperfeição.

Celulares, milhões deles. Cada um com o seu, e todos melhores que o meu. Graças a Deus. Os aparelhos são trocados constantemente, assim como os amigos, os amores, o caráter. Viva a Era do Consumo Desenfreado. Agora a moda é ter celulares que tocam músicas em volume alto, para que todos possam ouvir – e quanto pior a música mais alto parece ser o volume do som. Onde foram parar os benditos fones de ouvido? As pessoas parecem não mais existir para si próprias, na verdade parecemos todos pobres coitados nos sacrificando para chamar a atenção dos demais. Todos. Capazes do mais deprimente e desesperado uivo em busca de olhares de admiração (profundamente gratos e aliviados, no entanto, diante de qualquer reação que ultrapasse o simples e inaceitável “pouco caso”). E como me incomoda ser obrigado a compartilhar dos barulhos dos outros. Não suporto nem sequer os meus próprios. Apareço, logo existo. Por quê?

Chegamos ao litoral sem notar o trabalho do motorista do ônibus, do vendedor de passagens, da atendente da lanchonete. Mas chegamos aonde queremos alegres e felizes, e em grande medida por causa deles. Eles não chegam aonde querem, não passam o Ano-Novo com as pessoas que amam. Nossa culpa?

Chega a hora. A mais esperada e curiosa de todas. À caminho da praia, mãos carregam garrafas cheias de champanhe. As mesmas mãos humanas, um pouco mais marcadas pelo trabalho forçado de uma vida precária, carregam sacos igualmente cheios. Sacos cheios de latas vazias. E cheios de sofrimento também. E talvez muito mais cheios de dignidade e esperança do que nós e nossas existências vazias vestidas de branco e preenchidas de champanhe. (Digo “nossas” pois também participo do ritual e carrego a minha garrafa, e não sei dizer exatamente se sinto mais prazer ou culpa por isso.)

Sorrisos branquíssimos porém falsos, narizes empinados, e a atenção toda voltada para o céu. É sempre assim, todos de olho no Céu, enquanto a miséria notória ao redor é ignorada, enquanto pessoas são pisadas aqui nesta Terra. Shows pirotécnicos iluminam o céu do presente. E nublam o céu do futuro. Mas para que se preocupar? É Ano-Novo, minha gente. E, no próximo ano, tudo será diferente. A preocupação com o meio ambiente só cai bem em determinados momentos, deixemos nossa responsabilidade ambiental guardada junto aos moletons e casacos de lã. Afinal, não sejamos radicais. Saibamos buscar o equilíbrio e a tolerância. É preciso aceitar um pouquinho de corrupção e hipocrisia de vez em quando. Tudo faz bem na medida certa, apenas o que é demais faz mal. Sinceridade demais, então, nem se fala, não é mesmo? Ah, como me custa essa lição... receio ainda ter um longo caminho a percorrer até realmente aprendê-la. E talvez nunca a aprenda de verdade.

Os fogos estouram e eu, máquina com defeito, compreendo meus semelhantes cada vez menos, o que me traz a dúvida perigosa de que talvez não sejamos tão semelhantes assim. Penso em como as futuras gerações vão nos ver como imbecis. Assim como nós rimos dos mais curiosos rituais do passado – ou seja, dos que destoam do nosso pretenso mundinho avançado e civilizado –, elas vão gargalhar de nós e de nossos ritos inexplicáveis. Pelo bem deles, espero que pensem assim e que riam até doer a barriga. E que barrigas absolutamente só doam por causa disso. Que sirvamos ao menos de exemplo do que não deve ser feito.

Enquanto isso, bebo o meu champanhe pela boca e pelo nariz. Bebo tudo rapidamente para me livrar o quanto antes desse símbolo de que pertenço ao lado nobre da festa. Acabo com a garrafa que me separa dos meus iguais. E, assim, consigo esquecer toda a chatice que eu mesmo escrevi acima. Abraço a todos. Desejo feliz Ano-Novo até a quem não conheço. A quem gosto e a quem não gosto. E a quem não gosto nem desgosto. E, a cada gole de álcool, pareço mais perto das pessoas ao meu redor. E muito, muito mais longe do que Deus e eu esperamos desta espécie, que surpreendentemente sobrevive mesmo perseguindo com todas as suas forças a extinção.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Classe média ou classe medíocre?


Na edição 572, de três semanas atrás (capa ao lado), a revista CartaCapital trouxe em sua páginas uma matéria sobre o imperdível blog The Classe Média Way of Life (que passo a listar na minha barra de sites recomendados).

Com ilustrações do camarada Maringoni (que, segundo o próprio autor do blog, captou o espírito de seus escritos) e texto complementar do Mino Carta (sempre melhor quando não está a tratar do caso Battisti), a matéria se torna uma saborosa degustação do que se pode, com fartura, encontrar no blog: um humor de aguçado vigor crítico, absolutamente sarcástico (e, como todo bom sarcasmo, é de uma sutileza incrível, capaz de deixar de boca aberta, sem entenderem nada, os representantes da classe média brasileira, explorada aspirante a exploradora).



E vejam como são previsíveis os "médio-classistas". Duas semanas depois, a revista (?) Veja traz como matéria de capa o que, segundo o blog acima citado, representa um "deleite sem limites para a classe média". Revistinha elitista, supérflua e mentirosa + defesa das obras de "autoajuda" = "orgamos múltiplos espontâneos nas salas de estar dos apartamentos e nas esperas dos consultórios odontológicos Brasil afora".

Segundo a Veja, é na autoajuda que "milhões de brasileiros encontram [...] soluções reais para seus problemas". Não é verdade. Os "ajudados" existem, sim, mas não são milhões. Formam, ao contrário, um clube seleto, composto dos que escrevem, publicam e/ou vendem esses livros, bem como daqueles que se utilizam dessa anestesia intelectual, que se contrapõe à reflexão crítica, para fortalecer a sua dominação.

Não digo mais nada, não quero estragar a surpresa. Acessem The Classe Média Way of Life, vocês não vão se arrepender.

domingo, 25 de outubro de 2009

Manifesto em defesa do MST

Não é de hoje que a mídia brasileira, aquela que defende os interesses espúrios do agronegócio como se fossem estes os interesses do conjunto da nação, estrebucha quando o MST faz o que quer que seja.

Portanto, não deveria me espantar a parcialidade com que o episódio da derrubada dos pés de laranja foi tratado. Interessante foi observar a cobertura da Folha de S.Paulo, que no domingo seguinte traçou um elogioso perfil de Eike Batista, homem mais rico do Brasil e notório investigado por fraudes em licitações públicas (o que talvez não seja mera coincidência).

Perplexo, perguntei aos meus igualmente perplexos botões: Até quando aqueles que defendem o patrimônio público destinado ao bem-estar coletivo vão ser tratados como bandidos? E até quando aqueles que enriquecem à custa do Estado e da apropriação privada dos bens públicos vão ser tratados como heróis?

Por todos que se importam mais com vidas humanas do que com pés de laranja plantados em terras sob suspeita de irregularidades, desejo que um dia se faça justiça neste país. E que nesse dia os cidadãos brasileiros saibam escolher de que lado estar. Enquanto esse dia não chega, compartilho o manifesto abaixo, uma necessária luz para iluminar este período de trevas em que parecemos estar mergulhados.




Contra a violência do agronegócio e a criminalização das lutas sociais

As grandes redes de televisão repetiram à exaustão, há algumas semanas, imagens da ocupação realizada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em terras que seriam de propriedade do Sucocítrico Cutrale, no interior de São Paulo. A mídia foi taxativa em classificar a derrubada de alguns pés de laranja como ato de vandalismo.

Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra e pela Justiça. Trata-se de uma grande área chamada Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares. Desses 30 mil hectares, 10 mil são terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas e 15 mil são terras improdutivas. Ao mesmo tempo, não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra.

Na ótica dos setores dominantes, pés de laranja arrancados em protesto representam uma imagem mais chocante do que as famílias que vivem em acampamentos precários desejando produzir alimentos.

Bloquear a reforma agrária

Há um objetivo preciso nisso tudo: impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola – cuja versão em vigor tem como base o censo agropecuário de 1975 – e viabilizar uma CPI sobre o MST. Com tal postura, o foco do debate agrário desloca-se dos responsáveis pela desigualdade e concentração para criminalizar os que lutam pelo direito do povo. A revisão dos índices evidenciaria que, apesar de todo o avanço técnico, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam e estaria, assim, disponível para a reforma agrária.

Para mascarar tal fato, está em curso um grande operativo político das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST. Deste modo, prepara-se o terreno para mais uma ofensiva contra os direitos sociais da maioria da população brasileira.

O pesado operativo midiático-empresarial visa isolar e criminalizar o movimento social e enfraquecer suas bases de apoio. Sem resistências, as corporações agrícolas tentam bloquear, ainda mais severamente, a reforma agrária e impor um modelo agroexportador predatório em termos sociais e ambientais como única alternativa para a agropecuária brasileira.

Concentração fundiária

A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, conforme o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%. As pequenas propriedades estão definhando enquanto crescem as fronteiras agrícolas do agronegócio.

Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009) os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano seguem marcando uma situação de extrema violência contra os trabalhadores rurais. Entre janeiro e julho de 2009 foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, ocorrendo um assassinato a cada 30 conflitos no primeiro semestre de 2009. Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e 6 pessoas torturadas no primeiro semestre deste ano.

Não violência

A estratégia de luta do MST sempre se caracterizou pela não violência, ainda que em um ambiente de extrema agressividade por parte dos agentes do Estado e das milícias e jagunços a serviço das corporações e do latifúndio. As ocupações objetivam pressionar os governos a realizar a reforma agrária.

É preciso uma agricultura socialmente justa, ecológica, capaz de assegurar a soberania alimentar e baseada na livre cooperação de pequenos agricultores. Isso só será conquistado com movimentos sociais fortes, apoiados pela maioria da população brasileira.

Contra a criminalização das lutas sociais

Convocamos todos os movimentos e setores comprometidos com as lutas a se engajarem em um amplo movimento contra a criminalização das lutas sociais, realizando atos e manifestações políticas que demarquem o repúdio à criminalização do MST e de todas as lutas no Brasil.


Ana Clara Ribeiro
Ana Esther Ceceña
Boaventura de Sousa Santos
Carlos Nelson Coutinho
Carlos Walter Porto-Gonçalves
Claudia Santiago
Claudia Korol
Ciro Correia
Chico Alencar
Chico de Oliveira
Daniel Bensaïd
Demian Bezerra de Melo
Fernando Vieira Velloso
Eduardo Galeano
Eleuterio Prado
Emir Sader
Gaudêncio Frigotto
Gilberto Maringoni
Gilcilene Barão
Heloisa Fernandes
Isabel Monal
István Mészáros
Ivana Jinkings
José Paulo Netto
Lucia Maria Wanderley Neves
Luis Acosta
Marcelo Badaró Mattos
Marcelo Freixo
Maria Orlanda Pinassi
Marilda Iamamoto
Maurício Vieira Martins
Mauro Luis Iasi
Michael Lowy
Otilia Fiori Arantes
Paulo Arantes
Paulo Nakatani
Plínio de Arruda Sampaio
Reinaldo A. Carcanholo
Ricardo Antunes
Ricardo Gilberto Lyrio Teixeira
Roberto Leher
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Sergio Romagnolo
Virgínia Fontes
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